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ALIMENTAÇÃO E CANCRO #1

Alguns leitores e também utentes no meu local de trabalho, a quem lhes foi diagnosticado cancro, têm-me pedido para escrever sobre a alimentação que devem fazer nesta nova fase da vida. De facto, o cancro é, felizmente, cada vez mais uma doença crónica e os doentes vivem muitos anos, pelo que devem ter cuidados redobrados com a alimentação.

Os doentes com cancro devem, dentro do possível, fazer uma alimentação saudável e equilibrada, praticar exercício físico e manter as rotinas diárias. Quanto à alimentação, esta pode ser um problema na fase do tratamento intensivo devido aos efeitos secundários, como a falta de apetite, náuseas, vómitos ou feridas na boca. Deixo aqui algumas recomendações alimentares e nutricionais e alguns exemplos de refeições nutritivas, boas opções para esta fase mais difícil.

Nota: Estas recomendações não substituem uma consulta individual com um nutricionista especializado em nutrição oncológica.

Recomendações alimentares e nutricionais para doentes com cancro:

No momento em que a doença é diagnosticada, os doentes podem apresentar perda de peso e uma desnutrição considerada moderada ou severa. Uma intervenção nutricional precoce e individualizada revela-se essencial para controlar a perda de peso, melhorar a resposta aos tratamentos, diminuir as complicações e melhorar a qualidade de vida. Os doentes apresentam muitas vezes alterações nos valores de glicemia e este dado tem que ser tomado em consideração na elaboração do plano alimentar.

Recomendações:

- Vigiar a glicemia
- Ter em conta as preferências alimentares do doente;
- Os alimentos escolhidos devem assegurar um aporte energético e proteico adequado;
- A dieta deve ser fraccionada em refeições de pequeno volume e muito nutritivas aproveitando os momentos de maior apetite do doente;
- Devem ser fornecidos frutas e legumes crus, cozidos ou assados;
- Se o doente estiver em tratamento com quimioterapia, deve fazer refeições de confecção simples (evitando cheiros intensos), atractivas e do seu agrado;
- Para prevenir náuseas e vómitos, recomenda-se ingerir alimentos frios com o objectivo de diminuir o sabor e aroma;
- Evitar a exposição a odores de comida penetrante ou desagradáveis, bem como aqueles alimentos que por si só podem produzir náuseas como é o caso dos fritos ou alimentos excessivamente condimentados;
- Nos períodos de náuseas evitar os pratos preferidos do doente para que não desenvolvam aversão a alimentos que serão úteis para o nutrir em fases assintomáticas;
- Evitar beber líquidos às refeições. Beber fora da refeição e em pequenas quantidades. As bebidas com gás (carbonatadas) podem ser úteis para diminuir distensão gástrica;
- Enriquecer nutricionalmente pratos como purés ou sopas utilizando a clara de ovo, queijo ralado, manteiga, nata, tapioca ou molhos tipo bechamel;


Exemplos de refeições nutritivas

- Sopa de legumes variados à qual se pode adicionar a carne, peixe ou ovo, se o doente apresentar falta de apetite. Adicionar uma mão de leguminosas (feijão, grão ou ervilhas) e aumentar a quantidade de azeite.
No caso do doente ter repulsa pela carne ou alimentos proteicos deve considerar-se a hipótese de adicionar à sopa um suplemento modular. Neste caso, pedir o conselho de um nutricionista.

- Acompanhar a refeição com pão ou broa;

- Açorda ou farinha de pau de peixe, carne ou ovo escalfado;

- Batidos de fruta com leite ou iogurte e cerelac ou bolacha maria (no caso de não haver alterações no valor da glicemia);

- Leite creme, arroz doce ou aletria (no caso de não haver alterações no valor da glicemia);

- Papas lacteas (Cerelac), Nestum ou no caso de haver alterações no valor da glicemia (hiperglicémia) pode optar-se por Nestum de arroz ou papas de aveia;

- Frutos oleaginosos (nozes, amêndoas, amedoins, avelãs, cajús, etc.) podem fazer parte das saladas, por exemplo, ou ingeridos em qualquer refeição;

- A gelatina é normalmente bem tolerada;

- Sumos de fruta, sumos 100% e néctares;


Sites consultados

http://oncologiaynutricion.com/archivos/soporte_nutricional/sn_print_E.pdf (29.10.13)

http://www.inca.gov.br/inca/arquivos/publicacoes/consenso_nutricao_internet.pdf (29.10.13)


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