Q&R #3


A dúvida se devemos ou não tomar leite depois de adultos é recorrente. Recebi vários mails a solicitar um post sobre o assunto. Seleccionei a questão colocada por uma mãe que se sente perdida na decisão sobre se deve ou não dar leite ao seu filho:

Q- Segundo a dieta macrobiótica e a dieta do Paleolítico nós não deveríamos consumir produtos lácteos. A minha pergunta é então: onde vamos colher o cálcio de que necessitamos? E a dúvida agrava-se no que toca a crianças e bébés porque a sua alimentação é baseada no leite, papas com leite, iogurte... O que fazer nesta situação?

P- Não concordo com a ideia de que não devemos consumir produtos lácteos com o argumento de que o homem é o único animal que os toma depois da infância. O ser humano pode ser o único animal que toma leite depois do desmame, mas é também o único animal que tem conhecimento e sabe que este é um alimento com um valor alimentar e nutricional inigualável. Deve ser consumido na infância, na adolescência, na idade adulta e na velhice, desde que não existam intolerâncias. Sabe-se que uma grande percentagem da população adulta portuguesa possui alguma incapacidade de digestão da lactose. As pessoas que se encontrem nesta situação devem procurar alimentos alternativos como iogurte, requeijão, queijo ou bebida de soja.

Quem toma leite sem ter problemas digestivos pode tirar daí vantagens para a saúde pois o leite é uma boa fonte de vitamina A e é a fonte de cálcio com a melhor biodisponibilidade, isto é, o cálcio do leite é melhor absorvido e utilizado pelo organismo do que o proveniente de alguns vegetais considerados boas fontes de cálcio. A biodisponibilidade de um nutriente é "a eficiência com que um componente de dieta é utilizado sistematicamente através das via metabólicas normais". Ainda relativamente ao cálcio, é preciso saber que, apesar de alguns vegetais serem bons fornecedores do mineral, nalguns casos seria necessário consumir quantidades exorbitantes desses vegetais para obter os mesmos 300 mg fornecidos por uma caneca de leite meio gordo.

Termino com a referência à importância do leite como fonte de proteínas na alimentação de idosos com dificuldades de deglutição e/ou de mastigação e que, devido a essa incapacidade, não conseguem comer nem carne nem peixe. Quem trabalha com idosos sabe que a desnutrição proteico-calórica é um distúrbio nutricional comum  associado ao aumento da mortalidade e infecções que diminuem a qualidade de vida. Um leite creme ou um arroz doce podem, nestes casos, constituir boas alternativas para uma das refeições principais.

Numa época de crise como a que vivemos, prescindir do leite, uma fonte de proteínas relativamente barata, com base em argumentos pouco consistentes como os defendidos pelos macrobióticos oupelos "paleolíticos", não tem qualquer cabimento.
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