SALA DE CONSULTA # 21: Testes de intolerâncias alimentares por biorressonância são completamente inúteis

Duas utentes que são amigas e trabalham no mesmo escritório,  vieram hoje à minha consulta, trazendo na mão, para me mostrarem, o resultado de testes de intolerâncias alimentares que tinham resolvido fazer aproveitando uma "promoção" de uma empresa de Guimarães. Os resultados, que tenho aqui comigo, consistem numa lista extensa de alimentos com percentagens de intolerância. Pretende ser um "exame de intolerâncias alimentares a 545 alimentos, efectuada através da técnica de biorressonância." Apesar da "promoção" cada uma delas pagou pelo ProNutri (assim se intitula o teste) 60 euros.

Quando tenho situações clínicas que justificam um teste de intolerâncias alimentares, recorro ou a um laboratório tradicional que, através da análise do sangue, detecta a presença de quantidades anormais de determinadas imunoglobulinas ou a um laboratório de genética médica sediado no Porto (CGC Genetics), que estuda os genes relacionados com intolerâncias alimentares frequentes (nomeadamente à lactose, frutose e glúten). 

Mas, voltando ao ProNutri, fiquei curiosa: um teste não invasivo que se faz colocando um eléctrodo em dois dedos? Se fosse bom, também queria um no meu consultório... Mas fui céptica. Fui logo à Net investigar o fundamento científico. Não foi preciso muito tempo para perceber que o teste não passa de uma fraude, que diz utilizar técnicas da física com nomes complicados como "biorressonância magnética que opera através da tecnologia de Biofeedback", palavras que apenas servem para enganar os incautos. Descobri também que os responsáveis pela empresa que faz os testes são um casal de freelancers sem qualquer formação na área da saúde.

Importa esclarecer os leitores deste blogue que as intolerâncias alimentares são, de um modo geral, devidas à falta de produção de uma enzima que ajuda na digestão de um determinado nutriente do alimento, causando perturbações gastrointestinais como gases, náuseas, diarreia ou outros problemas. São, portanto, fenómenos bioquímicos e fisiológicos e não tÊm nada a ver com fenómenos físicos relacionados com "energias" e  "vibrações dos alimentos" apregoadas pelos vendedores dos caríssimos testes, cujos resultados não têm por isso qualquer validade. Para ilustrar o que acabo de dizer, transcrevo um excerto da explicação do método Pronutri dada pelos referidos freelancers: 

"Trata-se aqui de estímulos enviados ao cérebro através de dois meridianos ou terminais nervosos situados na ponta de dois dedos e a consequente quantificação da energia de cada alimento, também chamada de frequência vibracional. Esta informação é guardada pelo hipotálamo, que ao ser estimulado responde."

Frequência vibracional dos alimentos? Informação guardada pelo hipotálamo? Como é possível alguém dizer tanto disparate...

Fica o alerta aos meus leitores. Fiquem atentos e informados para não se deixarem enganar, gastando dinheiro mal gasto. Se necessário, aconselhem-se com profissionais de saúde. Os testes credíveis de intolerâncias alimentares envolvem, em geral, a colheita de sangue para detecção de produção anormal de determinadas imunoglobulinas. Se não envolverem, o melhor é desconfiar.

Termino com um excerto de uma notícia publicada em Outubro do ano passado no Jornal de Notícias que refere a preocupação do presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia sobre este assunto:


"O presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia alerta que os testes múltiplos de intolerância para detectar alergias alimentares são inúteis e desaconselhou a sua recomendação e comparticipação pelos sistemas de saúde. O alerta da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia (SPAIC) surge porque os especialistas são constantemente abordados sobre o interesse da realização destes testes, que "estudam indiscriminadamente intolerâncias/ alergias alimentares".

"Cada vez mais assistimos a pessoas que, por iniciativa própria ou por profissionais que não estão habilitados, nos aparecem com análises que foram feitas para estudar eventuais intolerâncias ou alergias alimentares", conta à agência Lusa Mário Morais de Almeida.

O especialista adianta que esta situação já acontece há algum tempo, mas agora começa a ser mais frequente. "As pessoas tentam estudar os seus problemas por iniciativa própria, pedindo análises por indicações que não são médicas e que depois têm interpretações muito erradas, associadas a custos que não são justificados", disse.

"As pessoas, porque andam mais cansadas, porque andam mal dispostas, com queda de cabelo, dores de cabeça, pedem este tipo de análise sem qualquer tipo de orientação técnica", alertou.

Esta situação pode levar a "riscos muito importantes, nomeadamente em termos de saúde, devido ao tipo de dietas que começam a ser feitas, assim como as restrições alimentares feitas sem fundamento".

Mário Morais de Almeida dá como exemplo a alergia ou a intolerância ao leite de vaca, a mais frequente na população: "não é com este tipo de exames que as intolerâncias são estudadas. Carecem sempre da avaliação dos sintomas por um médico e depois então eventuais pedidos de alguns exames e uma dieta recomendada".

Salientou ainda que "estas análises não estão incluídas em qualquer sistema de reembolso, nem nunca podem vir a ser. Estamos a falar de análises que não têm validação científica e, segundo os doentes, podem custar centenas de euros".

"O alerta dos alergologistas é para tentar parar com esta tendência, em que já se fala em promoções nas análises", frisa.

A abordagem das doenças resultantes de mecanismo alérgico ou de intolerância a alimentos ou aditivos, deve ser realizada cumprindo os pressupostos da boa prática médica, dependendo de metodologias de diagnóstico clínico e laboratorial bem conhecidas pela comunidade científica nacional e internacional."

Comentários

João disse…
Nada de novo, afinal toda a ciência não passa duma fraude. E hoje ainda se vive de forma tão primitiva que mais parece não ter existido sequer evolução.
Graças a Deus que estamos a voltar às origens e a deixar a animalidade e o científico que foram precisamente os tais que nos colocaram no abismo da bestialidade, assassinatos em nome da segurança, do científico e da ganância.
Anônimo disse…
Olá, não discordo que haja muitos a se aproveitarem deste tipo de situações, mas se formos por aí não podiamos acreditar na ciência comprada, na Industria Farmacêutica por interesses finaceiros, etc.
A minha filha fez 2 tipos de exames á intolerância aos alimentos no espaço de uma semana, uma Pronutri e outro num laboratório com recolha de sangue, as dois exames foram equivalentes nos resultados, excepto no preço.
Obr.José Manuel
Jaime disse…
Fiz exame utilizando o método da biorressonância aqui em Brasília-DF, Brasil, com uma médica, Dra. Valeria Társia Duarte que conheceu o método quando se especializava na Inglaterra. O aparelho é alemão. Pois bem: detetou todas as minhas intolerâncias, e sua orientação a partir do teste, inclusive com probióticos, ajudou-me na cura de uma 'gripe', dor de cabeça e rinite eternas que a medicina convencional não resolveu...Se eu quiser ganhar novamente rinite e 'gripe', basta me empanturrar por 3 dias seguidos dos alimentos ofensores. Simples assim.
Dra. Valéria é regularmente inscrita no CRM-DF
Anônimo disse…
Vi na internet um site oferecendo biorressonâncias em formato mp3, chamado isotronix, sera que funciona?
Anônimo disse…
Há cada comentário aqui que é impressionante. Toda a ciência é uma fraude? Foi a ciência, e não esta "pseudo-ciência" de biorressonâncias, que nos permitiu evoluir e fazer frente a doenças como cancros ou a SIDA. Não foi o científico que fez do ser humano violento ou assassino, actos desse tipo existem desde sempre na história, por motivos muito mais selvagens do que aqueles que o João diz.

Toda a indústria é interesseira, não vamos por aí. Seja a farmacêutica, a da biorressonância ou do bacalhau.
Anônimo disse…
Discordo desse post tendo como base minha experiência com esse exame. Sentia enxaqueca desde os 12 anos, nenhum médico nunca identificou a causa. Até que uma médica, devidamente registrada, me sugeriu esse exame. Eliminei os 5 alimentos que meu organismo detectou sensibilidade e simplesmente não tive mais enxaqueca. Na mesma época, um Neuro havia me receitado antidepressivo por quinze dias no mês, como método preventivo das crises. Sinceramente, penso que muitos médicos tentam invalidar esses exames porque eles lhes tiram a oportunidade de nos receitarem medicamentos desnecessários e, assim, obterem os benefícios que lhes são oferecidos pela indústria farmacêutica.
Anônimo disse…
Algumas pessoas consideram a ciência arrogante – especialmente quando pretende rebater opiniões arraigadas ou introduz conceitos bizarros que parecem contraditórios ao senso comum. Como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar. Ainda assim, sustento que a ciência é, em essência, humildade. Os cientistas não procuram impõe suas necessidades e desejos à Natureza; ao contrário interrogam-na humildemente e levam a sério o que descobrem. Sabemos que cientistas reverenciados cometeram erros. Compreendemos a imperfeição humana. Insistimos na verificação independente e – na medida do possível – quantitativa dos princípio propostos. Com frequência estimulamos, desafiamos, procuramos contradições ou pequenos erros residuais persistentes, propomos explicações alternativas, encorajamos a heresia. Concedemos nossos prêmios mas valorizados àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas.”

Carl Sagan
Anônimo disse…
Cara Ana Carvalhas. Eventualmente ainda não aprendeu que não sabe tudo acerca de tudo, que há mais mundo além daquele que enxerga.
Quando há muitas pessoas a pensar, a dizer e a fazer algo, pense que "não há fumo sem fogo" e, muito provavelmente, há algo que lhe está a escapar a SI.
Aprenda a questionar-se em vez de pensar que sabe tudo e pode dizer tudo. Se quiser.Se não quiser também está tudo bem.