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SALA DA CONSULTA # 13: A Hora do Lobo

A Cristina soube, há um ano, que o filho de sete anos tem diabetes tipo 1. Desde então, com a angústia contínua que sente e as manhãs passadas no hospital pediátrico a aprender a viver com a diabetes do filho, engordou doze quilos. 

Quando arranjou um bocadinho para tratar de si, procurou-me para tentar emagrecer. "Não me sinto bem. Canso-me facilmente e tenho dores nos joelhos, pareço uma velha." Fiz-lhe o habitual questionário sobre os hábitos alimentares e detectei que a Cristina, como dezenas de outras pessoas, come de uma forma razoalvelmente equilibrada ao longo do dia nas horas do trabalho. O problema começa a partir do momento em que entra em casa ao fim da tarde.  

Alguém chamou "a hora do lobo" a este momento, quando se dá um descontrolo da ingestão alimentar, quando caímos numa cadeia de acções inconscientes sem discernimento nem sabedoria. O stress, a angústia e o sofrimento, juntos ou cada um por si, podem ser os responsáveis pela compensação que se procura então na comida. Se esta compensação for consciente, não será grave porque a pessoa saberá que passou os limites e voltará a curto prazo a uma alimentação equilibrada. Se a comida for usada como escape, de uma forma inconsciente e continuada, poderão surgir episódios frequentes de compulsão alimentar com perda do controlo voluntário da ingestão de alimentos que levam invariavelmente à obesidade. É o que se chama comer sem regra. Nesta situação o perigo está na instalação de um ciclo vicioso de frustração e carência que determina a compulsão alimentar e, portanto, mais frustração e carência. O que fazer para prevenir este quadro?

A ajuda do ou da  nutricionista é indispensável nestes casos porque ele ou ela coloca regras explicando quais são os alimentos que propiciam os episódios de compulsão alimentar. 

Quando chegamos a casa cheios de fome o que fazemos é procurar alimentos que nos saciem e nos proporcionem prazer. São os alimentos com mais sabor e paladar, que possuem mais gordura, sal, condimentos ou açúcar que reunem as características que procuramos inconscientemente. Não é à toa que os croissants, o pão, as bolachas, os queijos, os enchidos, a manteiga, o chocolate, os bolos e as sobremesas são os mais referidos e estão no top ten dos mais consumidos na "hora do lobo". 

Recomendei à Cristina que passasse a ter maçãs com bom aspecto no escritório e que, antes de sair, agarrasse numa e a comesse pelo caminho. Depois, quando chegasse a casa, iria lanchar. Podia optar por iogurte de aromas e mais uma peça de fruta ou, nos dias mais frios, um chá com minitostas integrais (normalmente recomendo as da marca Pingo Doce, que são muito agradáveis e só fornecem 80 quilocalorias, mas há outras marcas).

Nos dias em que chegasse a casa esfomeada e quase em cima da hora do jantar, o melhor seria aquecer um prato de sopa e comê-la. Expliquei-lhe que a sopa é um alimento nutricionalmente fantástico com a vantagem de ter poucas calorias. E foi o que passou a fazer. A Cristina disse-me que, nos dias frios, como os que têm estado, lhe sabe lindamente a sopa que toma às 18h30 quando chega a casa. Com esta e outras pequenas alterações, ja perdeu 5 kg em apenas um mês e meio. Sente-se melhor e prometeu continuar. E eu, claro, dou-lhe mais força para ela atingir o seu objectivo.
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