SALA DE CONSULTA # 9: Iogurtes em vez de medicamentos?

A Dona Felismina é uma senhora de 75 anos, com pouca instrução, que chegou à minha consulta por ter obesidade, colesterol elevado, hipertensão arterial e dores articulares. É, de facto, sabido que a hipercolesterolemia, a hipertensão e as dores nas articulações dos membros inferiores andam de braço dado com a obesidade, pelo que seria de todo vantajoso que a Dona Felismina perdesse peso.

Fiz-lhe o inquérito habitual sobre medicação, ficando a saber que ela estava a tomar medicamentos para baixar o colesterol sanguíneo e para baixar a tensão. Quando acabei de registar esta informação na ficha clínica, reparei que ela olhava para mim como uma criança que tinha descoberto uma coisa boa. E disse-me: "Sabe, doutora, na verdade já não estou a tomar  o medicamento para o colesterol. Ouvi na televisão o anúncio daqueles iogurtes que baixam o colesterol e troquei o medicamento pelos iogurtes." Perguntei-lhe se tinha dado conhecimento à médica que lhe receitara o medicamento, ao que respondeu negativamente. Então expliquei-lhe os perigos que corria por ter deixado de tomar a medicação para baixar o colesterol e expliquei-lhe também que os iogurtes não podem substituir os medicamentos. Bem sei que os fabricantes do tipo de iogurtes em causa publicitam que eles actuam no colesterol alimentar, recomendando que se tome o iogurte no final de uma das refeições principais, devido à ligação de alguns fitoquímicos presentes no iogurte ao colesterol dos alimentos, impedindo assim a aborção deste no organismo. Mas trata-se de pretensões às quais falta suficiente credibilidade científica. E, além do mais, ninguém toma os iogurtes às refeições principais, mas sim ao pequeno-almoço ou ao lanche.

A Dona Felismina, ao deixar de tomar os seus comprimidos para o colesterol, ficou em risco de ter um acidente vascular cerebral ou problemas cardíacos graves. Tudo isto devido a publicidade enganosa. Quantas pessoas por esse país fora não terão feito o mesmo que a Dona Felismina? E não há ninguém que seja responsabilizado?

NOTA: Os casos aqui contados na rubrica "Sala de Consulta", baseiam-se em casos reais, mas todos os nomes são trocados, assim como alguns pormenores alterados, para garantir a absoluta privacidade dos doentes.
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