Listas de espera para cirurgia de obesidade não param de aumentar

Entrevista ao Doutor Francisco Castro e Sousa, director do Serviço de Cirurgia III dos Hospitais da Universidade de Coimbra: 

A obesidade é o problema número um da saúde pública do século XXI em Portugal e no mundo desenvolvido, considera Francisco Castro e Sousa, director do Serviço de Cirurgia III dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Entende que as administrações hospitalares não têm feito tudo o que está ao seu alcance para ultrapassar os entraves ao escoamento da lista de espera nos hospitais públicos que, nalguns casos, ultrapassa mesmo os quatro anos, tempo que põe a vida dos obesos mórbidos em risco.

Segundo dados fornecidos por este especialista mais de 50 por cento dos portugueses tem excesso de peso e 14 por cento obesidade mórbida. Números assustadores que se reflectem nos custos com a saúde: um quarto das despesas totais são feitas com obesos. O sedentarismo e a má alimentação são os responsáveis "nos últimos 20 ou 30 anos a vida tornou-se muito mais sedentária: as crianças antes iam para a rua jogar à bola ou iam para a escola a pé, agora chegam das aulas e vão sentar-se frente ao computador ou à televisão a comer batatas fritas e a beber Coca Cola", sublinha Castro e Sousa.

Para o cirurgião, os aspectos estéticos, que as pessoas tanto valorizam, são de somenos importância comparados com as co-morbilidades: problemas cardiovasculares, designadamente a angina de peito e a hipertensão arterial. Também os problemas pulmonares como a insuficiência respiratória, a sensação de falta de ar e a apneia do sono se agravam com o excesso de peso. Segundo o especialista, "todo o gordo tem tendência para ressonar mas melhora muito se perder peso."

A fazer cirurgias de tratamento da obesidade desde 1986, o professor catedrático da Universidade de Coimbra sublinha que a diabetes também é mais prevalente no obeso: "assim que o doente é operado, melhora imediatamente a diabetes, mesmo que ainda esteja muito longe do peso ideal." Francisco Castro e Sousa admite mesmo que esta solução possa vir a ser no futuro a cura mais eficaz para a diabetes.

As outras co-morbilidades comuns nos obesos mórbidos são igualmente as doenças metabólicas, como a elevação dos níveis séricos do colesterol e os triglicerídeos altos, problemas que ficam corrigidos para a vida com a operação. O especialista releva a doença hepática como sendo outra co-morbilidade, e explica porquê: "a gordura também se deposita no fígado e cinco a dez por cento dos doentes com fígado gordo vão ter cirrose." Os obesos mórbidos sofrem ainda de dores osteoarticulares e, segundo o especialista, há que operar as pessoas em tempo útil. "Uma vez operei uma senhora da Madeira com 73 anos com dores intoleráveis porque tinha artroses nas duas ancas. Ela pesava 120 quilos e não havia nenhum ortopedista que a operasse com aquele peso. Ainda hesitei mas acabei por fazê-lo e a senhora viveu até aos 82 anos com um resto de vida de excelente qualidade."

"O obeso mais gordo que operei tinha 300 quilos e sofria de dores brutais nos joelhos",recorda. "Era um jovem de 21 anos que já não saía de casa, e nem por email conseguiu arranjar emprego. Agora está a trabalhar e tem uma vida perfeitamente normal. Depois de operado ficou com 90 quilos."

Até o carcinoma do cólon e do recto são mais frequentes nestes doentes. Pensa-se que morram dez pessoas por dia em Portugal vítimas deste cancro de que são diagnosticados, todos os anos, cinco mil novos casos. Também o cancro da mama e do útero atinge em maior número as obesas. Depois vem o grupo das doenças psiquiátricas: falta de auto-estima e as dificuldades que são postas nas relações pessoais, familiares, sexuais e até laborais. Estas relações são quase sempre condicionadas pelo facto de se ser obeso mórbido. Segundo Castro e Sousa, estas doentes queixam-se de que não foram escolhidas para o emprego por serem gordas ou que os maridos as deixaram por elas terem excesso de peso.

A insuficiência venosa crónica é outra co-morbilidade que afecta os obesos mórbidos porque o coração tem muito mais dificuldade em aspirar o sangue que vem desde a periferia. Por isso o risco da trombose venosa é enorme. Aliás, o médico de Coimbra não tem dúvida de que todos estes problemas de saúde afectam infinitamente mais os obesos mórbidos do que a população em geral, para não falar do risco que correm quando têm de se submeter a uma operação normal como uma apendicite aguda, uma hérnia, vesícula, úlceras, etc.

A obesidade mórbida avalia-se quando a pessoa tem uma relação entre o peso e a altura ao quadrado superior a 40, que se denomina índice de massa corporal. “No entanto, se o valor for 35, e a pessoa tiver uma destas co-morbilidades já é considerado um obeso mórbido”, revela o cirurgião para acrescentar que este tipo de obesidade reduz a esperança de vida em 20 por cento!

Quem deve ser operado?
Engordar é, para algumas pessoas, uma inevitabilidade. É uma característica do material genético que varia de pessoa para pessoa. Há a ideia de que os gordos têm um estômago muito grande, mas não é verdade. Uns têm, mas outros não. Daí que para se propor um doente para cirurgia o primeiro passo é, segundo o cirurgião, ver se ele está dentro dos padrões estabelecidos: ter um índice de massa corporal superior a 40 ou 35 se houver uma co-morbilidade associada. Castro e Sousa recorda que as primeiras cirurgias da obesidade se faziam por via aberta. "Quando comecei a operar estes doentes , em 1986, o corte ía do final do esterno até bem abaixo do umbigo. Era uma enorme intervenção que se chamava By Pass Gástrico, demorava três horas e era extremamente invasiva." A seguir surgiu o "Gastric Sleeve"(gastrectomia tubular) uma intervenção que deixa o estômago em forma de tubo com dez por cento da sua capacidade total. Hoje é a operação que está mais na moda e se pratica em maior número. A maior inovação é que esta operação, aliás como todas as outras utilizadas para tratamento da obesidade mórbida, é hoje, quase sempre, realizada por laparoscopia, e demora entre uma e duas horas. Na opinião de Castro e Sousa, a intervenção mais simples é a Banda Gástrica. Faz-se através de quatro furinhos, dois com 10-15mm e dois com cinco milímetros e a banda entra através dos tubos da laparoscopia. A mortalidade operatória da banda é praticamente zero, enquanto a do By Pass pode alcançar dois por cento. "Com a banda o doente fica com um corpo estranho dentro de si, mas fica com o organismo exactamente igual ao que era", garante o especialista.

Estas cirurgias são dispendiosas porque os materiais usados são muito caros mas também porque o doente obeso é um doente muito difícil e obriga a uma assistência pós-operatória muito mais cuidada e a um acompanhamento muito mais permanente. No entanto, um estudo feito pelo Serviço de Saúde Britânico garante que um ano depois estão recuperados os custos com o doente obeso. "Por muito cara que seja a operação sai sempre mais barato ao Serviço Nacional de Saúde e sobretudo ao doente", admite Francisco Castro e Sousa. Para o cirurgião de Coimbra as vantagens da cirurgia da obesidade não se medem. “Não há memória de alguém se ter arrependido de fazer uma cirurgia destas. E quando há um caso ou outro de intolerância às bandas, e as pessoas têm de as tirar, ficam tremendamente desgostosas e acabam por vir a solicitar uma intervenção de outro tipo.”

Fonte
http://www.cienciahoje.pt/
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