ADN e Dieta


Meu artigo saído hoje no "Diário de Coimbra":

Graças ao Projecto do Genoma Humano concluído em 2003 e aos avanços recentes da sequenciação e análise do ADN é hoje possível diagnosticar melhor algumas doenças, permitindo que os médicos e os doentes tomem as medidas mais eficazes para reduzir ou mesmo eliminar os respectivos riscos.

Com efeito, a chave para compreender muitas doenças (como algumas formas de cancro, os acidentes cardiovasculares, a doença de Alzheimer, etc.) reside nos genes e na sua interacção com factores ambientais como estilo de vida, que inclui a alimentação. Somos o que somos graças, por um lado, aos genes que nos foram transmitidos pelos nossos pais (factores genéticos) e, por outro lado, ao modo como esses genes se expressam (factores epigenéticos), resultante do modo como vivemos. Especialistas em genética e em ciências da nutrição começaram já a investigar a forma como há por vezes intolerância de base genética a certos alimentos, a forma como os alimentos ajudam a activar ou a desactivar genes específicos, com consequências na saúde, e ainda o modo como a alimentação ou fármacos podem compensar ou minorar  problemas de saúde resultantes de alterações genéticas. O cruzamento da genética com a nutrição tem o nome de nutrigenómica. Apesar de haver alguma falsa ciência associada à nutrigenómica, cada vez mais esse novo ramo da ciência vem ganhando credibilidade e utilidade. Por exemplo, testes genéticos permitem indicar a propensão para a obesidade.

De facto, a ideia das análises genéticas não é nova. O teste do pezinho, por exemplo, que se faz hoje rotineiramente  aos bebés, remonta ao ano de 1963: trata-se  de uma prova genética que permite revelar um transtorno metabólico (a fenilcetonúria) relacionado com o aminoácido fenilalanina, que assim fica identificado prematuramente. Já antes, na amniocentese, se pode revelar a trissomia 21, um defeito genético que consiste no aparecimento de três em vez de dois cromossomas 21. A grande novidade das novas técnicas que tem sido revelada após o final do Projecto do Genoma Humano é a possibilidade de efectuar uma sequenciação completa do genoma humano por pouco dinheiro (menos de mil dólares) e em pouco tempo (menos de um dia). Isso veio tornar, a montante, as análises genéticas mais completas e rigorosas, pois se pode efectuar uma única sequenciação total dos cromossomas de um indivíduo, que permitirá responder a várias questões, em vez de uma sequenciação parcial que só permite responder a uma ou a poucas perguntas. Falta, porém, avançar mais, a juzante, no cruzamento dos dados do genoma com os dados clínicos.

Os testes genéticos relativos à obesidade estão a permitir conhecer melhor as pessoas com predisposição para desenvolver obesidade permitindo orientar a intervenção alimentar e prescrever o exercício físico mais eficaz. Saber se uma dada pessoa possui ou não um certo grupo de "genes de poupança de energia" permite conhecer a tendência para acumular gordura com a ingestão de hidratos de carbono, por exemplo, ou a eficácia do exercício físico na redução do peso. Pode  ainda revelar a melhor ou pior resposta a medicamentos disponíveis para tratar a obesidade ou doenças a ela associadas. De facto, o resultado de testes genéticos permite já hoje seleccionar, para cada doente, uma dieta que tenha maior probabilidade de sucesso. É um bom exemplo da chamada medicina personalizada, a medicina do futuro. A análise genética é, portanto, uma nova estratégia no combate à obesidade e, portanto, na defesa da nossa saúde que já está disponível hoje e que estará ainda mais no futuro.

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