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O desafio de alimentar 9-10 mil milhões de pessoas de forma sustentável e equitativa

Resumo da conferência proferida por Charles Godfray, professor da Universidade de Oxford, responsável pelo grupo de peritos escolhidos pelo Governo britânico para pensar as mudanças que a alimentação e a agricultura vão sofrer nas próximas décadas, na sexta-feira passada no Ciclo de Conferências da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa:

"Nesta minha palestra, exploro alguns dos principais problemas que afectarão a segurança alimentar nas próximas quatro décadas, recorrendo substancialmente ao Projecto Foresight do Gabinete de Ciência do governo do Reino Unido, dedicado ao Futuro da Alimentação e da Agricultura, a cujo painel externo presidi.

O recente período de volatilidade de preços alertou-nos para as profundas alterações que se estão a dar no sistema alimentar. Os preços actuais poderão vir a baixar, mas tem-se verificado uma série de alterações no sistema alimentar de que resultarão prováveis aumentos de preços ao longo do século. A população aumentará (embora a um ritmo mais lento) e as populações de todo o mundo terão mais poder de compra e procurarão uma dieta mais rica, que exigirá mais recursos. A população global será cada vez mais urbana, o que irá alterar a forma como se adquirem e comercializam os alimentos (além de ampliar as consequências sociais e políticas dos elevados preços da alimentação). Do lado da oferta, será crescente a competição pelo acesso ao solo, à energia e à água, sendo esta última particularmente preocupante, uma vez que vários dos principais aquíferos estarão esgotados por volta de 2025. A produtividade continuará a aumentar, embora o ritmo deste aumento tenha desacelerado recentemente o que está associado ao escasso investimento em I&D (Investigação e Desenvolvimento) aplicada ao sistema alimentar. Os serviços dos ecossistemas de que depende a produção alimentar têm-se degradado a uma escala que ameaça o abastecimento futuro. Os efeitos das alterações climáticas far-se-ão sentir cada vez mais e, mesmo não sendo todos negativos, os efeitos da maior frequência de eventos extremos bem como os atrasos na adaptação a um ambiente em mudança, terão impacto no sistema alimentar.

A economia política do sistema alimentar também evoluirá, embora de formas muito mais difíceis de prever. A Ronda de Doha sobre o comércio mundial está paralisada, mas até já foi ultrapassada pelos acontecimentos: na esfera agrícola, por assentar num mundo de excedente de oferta dos países ricos, e não na forte procura; e em todas as áreas, por não reflectir os avanços económicos dos BRIC e outros países de rendimentos médios. Sendo abertamente "pró-pobre", a Ronda pouco diz sobre o ambiente. Há um debate crescente sobre quão adaptadas a esse fim estarão as organizações internacionais encarregues da governação do sistema alimentar. O sector privado tem assistido a uma grande consolidação global em todos os sectores, apesar do surgimento de novos actores internacionais nas economias emergentes em anos recentes. Na sequência da maior crise económica global desde a Grande Depressão, é especialmente difícil prever o rumo da globalização nas próximas décadas.

Estes problemas são de tal ordem que para os enfrentar temos que alterar todos os componentes do sistema alimentar. Temos que produzir mais, moderar a procura e melhorar a eficiência e a governação do sistema alimentar. E tudo o que fizermos terá que ser encarado pelo duplo prisma do aumento da sustentabilidade e da melhoria das condições dos mais pobres. Produzir mais significa difundir as melhores práticas actuais e investir em conhecimentos novos, recorrendo em ambos os casos à ciência moderna de alta tecnologia, mas também a áreas mais tradicionais, como a agronomia e a ciência dos solos, que nos últimos anos tem merecido menos atenção. Moderar a procura implica lançar uma discussão pública difícil sobre as dietas e a pegada ambiental relativa de diferentes tipos de alimentos, em particular de diferentes tipos de carne. Temos que reduzir os 30% de comida que é produzida mas não é consumida, tanto nos países com rendimentos elevados como nos com rendimentos baixos (embora por diferentes razões). Temos que conceber a governação do sistema alimentar de modo a que a globalização beneficie a segurança alimentar, o ambiente e os pobres. Temos que nos mentalizar de que a segurança alimentar é fundamental para alcançar todos os objectivos económicos, ambientais e de desenvolvimento da humanidade no século XXI. Falhando na alimentação, falharemos em tudo."
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