Depressa se vai mais longe

Artigo meu saído hoje no suplemento sobre exercício físico do Diário de Coimbra:




Já se sabe há muito tempo que o exercício físico é essencial para a saúde. O famoso epidemiologista britânico Jeremiah Morris demonstrou, há mais de 50 anos, que o exercício fazia bem. Num seu célebre estudo publicado na revista médica The Lancet revelou que os condutores dos autocarros de Londres, que passavam os dias sentados ao volante, morriam mais novos do que os seus colegas cobradores, que não paravam de subir e descer as escadas dos veículos de dois andares. Mais tarde, Morris observou o mesmo fenómeno com funcionários dos correios, chegando a semelhante conclusão: os carteiros ingleses que entregavam o correio a pé ou de bicicleta estavam mais protegidos contra doenças cardíacas do que os seus colegas que se limitavam a trabalhar ao balcão. O investigador encontrou assim uma grande verdade sobre a saúde: a prática regular do exercício físico ajuda a viver mais tempo.

Os estudos mais recentes vão na linha desses trabalhos pioneiros. Um estudo que acaba de ser publicado na prestigiada revista Nature mostra, de novo, que o exercício tem inegáveis efeitos benéficos sobre a saúde, incluindo a protecção contra terríveis doenças metabólicas como a diabetes que cada vez atingem mais pessoas. A equipa de investigadores, liderada pela Doutora Beth Levine, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, descobriu, com a ajuda de experiências em ratinhos, que o exercício físico induz as células a reciclar componentes envelhecidos. Nesse processo, conhecido como autofagia, as células alimentam-se deste material. Já se sabia que dietas extremas, isto é, dietas com privação severa de alimentos, conduziam a autofagia. Ficou-se agora a saber que o exercício físico, que é muito menos penoso do que passar fome, produz o mesmo resultado. Pode-se, portanto, prolongar uma vida saudável por mais alguns anos não abdicando de uma alimentação normal desde que se tenha o cuidado de efectuar exercício regular desejavelmente com alguma intensidade.

Com os avanços da ciência médica, é cada vez mais claro que o exercício físico ajuda a prevenir doenças várias que constituem hoje um flagelo da humanidade como, além da diabetes, as doenças cardiovasculares, vários tipos de cancro e depressão. Apesar disso, poucos de nós temos o cuidado, na nossa vida diária, de dedicar algum tempo á prática de uma actividade física minimamente vigorosa. Deixamos a preguiça falar mais alto! Porém, nunca é tarde para começar. A canadiana Olga Kotelko, de 92 anos, iniciou o treino de atletismo aos 77 anos, encontrando-se hoje em grande forma física para a idade que tem. A andar e a correr todos os dias quer viver mais anos. O seu exemplo devia ser inspirador para todos nós.

Se queremos viver mais, temos, tal como a senhora Kotelko, que nos mexer mais. Não é preciso uma pista de atletismo. Uma caminhada todos os dias, ou mesmo uma corrida (o chamado “jogging”), ainda que curtas, na cidade ou no campo, são um bom seguro de saúde, em alternativa ao estádio ou ao ginásio. É barato e está ao nosso alcance. "A actividade física pode ser o melhor investimento de hoje na saúde pública do ocidente", escreveu Jeremiah Morris num artigo publicado em 1994 que hoje mantém perfeita actualidade. Morris morreu no ano de 2009, com a bonita idade de 99 anos.
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