Os magros também sofrem

A notícia do post anterior deu-me o mote para tratar um tema que há muito tenho vontade de abordar:  a magreza. Os magros são, para muita gente, “sortudos que podem comer qualquer coisa em qualquer quantidade a qualquer hora e não engordam”. Mas quem diz isso não imagina quanto pode  sofrer uma pessoa que come, come... e não consegue engordar. Uma baixíssima percentagem das pessoas que me procuram na consulta fazem-no porque são muito magras e querem engordar. Mas as taxas de sucesso do tratamento são bastante baixas. Para estas pessoas é mesmo difícil ganhar peso. Faço-lhes um plano alimentar equilibrado contendo alguns alimentos de mais fácil assimilação, conseguindo que aumentem em média dois ou três quilos num mês, mas não mais. Conseguem-no à custa de grande esforço, mas qualquer alteração no seu ritmo de vida, com uma situação ou outra de maior stresse, deita logo, normalmente, tudo a perder. 

Há também o estigma da anorexia. Quando olhamos para um supermagro, a tendência imediata é para pensarmos que se trata de uma pessoa anoréctica e os magros sofrem com essa suposição. Fui  uma vez consultada por duas irmãs gémeas, bonitas, não muito altas e com uma idade  que rondava os trinta anos. Aparentavam ter muito menos idade, o que para elas era uma dificuldade, mas esse era apenas um dos problemas dos muitos que fui descobrindo durante  a consulta. Sofriam imenso por serem magras e queriam desesperadamente engordar. Não iam à praia para não expor os seus corpos e nem sequer  tiravam o casaco, mesmo em dias de muito calor, para que ninguém reparasse nos seus braços demasiado finos. Contaram-me que, um dia, uma delas foi parar à urgência do hospital após um desmaio. Tinha estado de cama com uma virose e sentia-se fraca, mas o maior problema foi, no hospital,  terem duvidado que não era anoréctica. De facto, não era. Ma esta desconfiança da equipa médica é perfeitamente legítima pois quem conhece a doença sabe que as anorécticas mentem...

Esta história que conto foi para mim marcante. No meu trabalho diário, em que ajudo os "gordinhos" a resolver o problema do excesso de peso,  em geral com boas taxas de sucesso, fui-me apercebendo que o mundo dos magros é também um mundo de sofrimento, por vezes de muito sofrimento incompreendido Como nutricionista sofro por não conseguir ajudar mais a resolver os problemas dos magros.

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