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A favor da taxa do fast food


Levantaram-se algumas vozes contra a medida proposta  pelo Bastonário da Ordem dos Médicos de taxar em 10% os alimentos com excesso de sal, gordura e açúcar para sustentar o Serviço Nacional de  Saúde. Mas a medida justifica-se plenamente. Basta pensar que o fast food está na origem de inúmeras doenças que custam muito dinheiro ao Estado, quer dizer, a todos nós. Desde a medicação aos cuidados médicos e de enfermagem,  passando pelos materiais gastos em tratamentos dos diabéticos,  pelas cirurgias (sempre caras!) e pelas elevadas taxas de absentismo por incapacidade e custos para a segurança social.

Impressionou-me muito a quantidade de diabéticos, mulheres e homens em plena idade activa,  que observei quando, entre março e junho deste ano, estive a fazer uma formação no Serviço de Endocrinologia de um hospital do norte do país. Esses doentes afluíam várias vezes por semana, alguns diariamente, à consulta de pé diabético, para pensos e outros tratamentos. Passavam lá a manhã ou a tarde e tinham os pés e as pernas numa verdadeira lástima. Só não publico aqui algumas fotografias que tirei  porque,  além de não ter autorização, não quero ferir os leitores mais sensíveis. Como é que estas pessoas podem ir trabalhar, quando o "emprego" delas é ir, quase todos os dias, ao hospital para te tratar?  Que patrão pode manter um funcionário neste permanente estado de quase invalidez ou mesmo de invalidez?

O excesso de peso e  a obesidade está a aumentar de ano para ano entre nós e  isso acontece porque aos portugueses estão a piorar os seus hábitos alimentares. Não são só os jovens que consomem hoje fast food. Este tipo de alimentos está muito generalizado... E fast food é muito mais do que hamburgueres e pizzas. São os cereais de pequeno-almoço com mais de 40% de açúcar, são os ice-teas, as coca-colas e os néctares todos os dias à mesa dos consumidores menos informados. São as bolachas que não param de aumentar em variedade. São os sacos de minicroissants estrategicamente colocados no supermercado para esbarrarmos com eles. São os bolos baratos tipo dan-cake vendidos em pacotes bastante práticos,.São os iogurtes superdoces e agora também supergordos (refiro-me aos iogurtes gregos, que de grego ou de mediterrânico não têm nada, ao contrário do que a indústria quer fazer crer). São os sacos enormes cheios de gomas e outras guloseimas. São os baldes a transbordar de pipocas no cinema. Etc., etc. Podia ainda dar outros exemplos, mas estes devem chegar. Trocámos a  nossa alimentação tradicional, rica, variada e de qualidade, por uma série de alimentos nutricionalmente muito pobres. Trocámos o pão, o leite, a sopa, o peixe, as leguminosas e as frutas, por cereais de pequeno-almoço, refrigerantes, batatas fritas e guloseimas. Que pena!  

Quem está contra uma tal medida ignora decerto o que se passa no terreno, não conhece a realidade do nosso sistema de saúde. Pretende-se que parte dos lucros obtidos com a venda deste "lixo alimentar" seja canalizada para as instituições de saúde de modo a ajudar a pagar as astronómicas despesas. É uma espécie de princípio de utilizador-pagador. Que mal há nisso?

Que esta discussão seja, pelo menos, mais um alerta para os perigos que o consumo excessivo de fast food acarreta. E, ao contrário do que dizem os opositores da proposta, não retiraria a liberdade a ninguém. Todos continuam a ser livres de comprar e de consumir o que muito bem entenderem. Mas a mudança de preço pode ajudar a racionalizar o consumo. Insisto: estes alimentos não fazem falta a ninguém. São um vício, tal como o tabaco ou o álcool aos quais se tem aumentado nos últimos anos, sem grande oposição, a carga fiscal.

A taxa sobre o fast food pode "não fazer com que as pessoas se alimentem de forma mais saudável", como afirmou um opositor da medida, mas pode levar a indústria a reduzir os teores de sal, açúcar e gordura dos alimentos no intuito de conseguir produtos com preços concorrenciais.
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