"GORDOS POBRES, POBRES GORDOS"


É geral o coro de protestos contra o programa "Peso Pesado" da SIC. Por vezes é mais do que protesto, é indignação. Um dos textos mais bem pensados e escritos e que por isso mais gostei de ler foi o de Eduardo Cintra Torres, o crítico de televisão da SIC, com o título de cima. Deixo um excerto:

"(...) A dimensão pedagógica do programa é irrelevante. Trata-se de puro entretenimento à conta da obesidade. A gordura tem uma dimensão visual literalmente grande; em situações de esforço e jogos de entretenimento visual, torna os concorrentes figuras de circo. Os concorrentes fazem de animais que são treinados na arena mediática. Um programa destes com anorécticos não atrairia da mesma maneira, pois não só os magríssimos não se vêem bem (e simbolizam a morte), como os gordos significam um excesso pantagruélico feliz, apenas desregrado.

As histórias de vida dos concorrentes revelam como a obesidade é um problema social dos mais pobres. Os pobres não só comem mais quantidade do que os ricos como comem muito pior. Ao perfil de classe baixa dos concorrentes junta-se o aparente absurdo da obesidade sem saída, como se fosse uma fatalidade que não conseguem resolver sozinhos. O perfil de pobreza prolonga-se para a audiência, que engordou com classe D o padrão de espectadores da SIC, habitualmente desprovido do grupo com menos posses.

Os concorrentes dizem entregar-se ao sacrifício da exposição pública e do exercício físico no peso Pesado por não verem outra oportunidade de emagrecer. Gordos, pobres e humilhados, estão, porém, de livre vontade no circo da televisão. Esta aparece de novo como a santa casa da misericórdia que lhes providencia essa oportunidade. para isso expõem-se sacrificialmente, mostram os corpos grotescos, humilham-se na balança, nos "jogos" e nos exercícios simples para eles sobre-humanos. A humilhação é o preço. A televisão mascara-a com o discurso emocional e bem intencionado da apresentadora e dos treinadores. Estes fazem psicanálise de pacotilha, nas sessões individuais com os concorrentes e nos comentários posteriores para os espectadores. (...)" (Eduardo Cintra Torres)

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