ENTREVISTA À REVISTA GINGKO

Partilho com os leitores do blogue as respostas que dei às questões colocadas pela jornalista Teresa Violante da revista Gingko, sobre a obesidade:

G - O que é obesidade? A partir de que momento se pode afirmar que uma pessoa é obesa?
AC
- A obesidade é uma doença crónica que pode atingir toda a gente – mulheres, homens, crianças e idosos. Caracteriza-se por acumulação de tecido gordo para além da que é necessária ao normal funcionamento e equilíbrio de um corpo saudável. A obesidade reduz a qualidade e a esperança de vida devido à sua relação com a diabetes, a hipertensão, o colesterol elevado, problemas nas articulações, baixa auto-estima, etc. Pode medir-se e mede-se internacionalmente pelo chamado Índice de Massa Corporal, um valor que se obtém dividindo o peso pelo quadrado da altura: de uma forma simples o valor indica se um indivíduo adulto tem peso baixo, peso normal ou peso excessivo. Há pré-obesidade quando o valor é superior a 25 e há obesidade quando o valor é superior a 30 kg/m^2.


G - Qual a dimensão/gravidade do problema a nível nacional?
AC - Infelizmente trata-se de um flagelo mundial. A Organização Mundial de Saúde chamou à obesidade a epidemia do século XXI, pois continua a alastrar de modo preocupante em muitos países, incluindo o nosso. Em Portugal, prevê-se que, se nada se fizer em contrário, no ano de 2025 metade da população portuguesa venha a ser obesa. Há, portanto, um problema de saúde pública. Esse problema põe-se em particular entre os jovens, que se alimentam mal, com grande prejuízo da sua saúde actual e futura.

G - Quais os erros alimentares mais comuns? É possível apontar alimentos “vilões”?

AC - Os jovens usam e abusam de comida rápida, em vez de alimentos necessários para o seu crescimento: hambúrgueres, pizzas, sumos que de sumo pouco têm, cereais açucarados, etc. Quanto aos adultos eles têm maus hábitos alimentares, com o abuso de gorduras e hidratos de carbono: carnes gordas, batatas fritas, etc. Os alimentos “vilões” são todos os que fornecem demasiadas calorias, pois, se estas não forem gastas através de actividade física, irão contribuir para o excesso de peso.

G - Segundo o ditado popular, “somos o que comemos”. Mas também há quem coma de forma incorrecta e, graças aos genes, não engorde. Qual o peso da alimentação e da componente genética para o excesso de peso?

AC - Sim, é verdade que o nosso corpo é construído com base nos alimentos que ingerimos. Por isso, ter cuidado com o que comemos é o melhor seguro de saúde que podemos fazer. De facto, há algumas – poucas – pessoas que, apesar de não terem o devido cuidado com o que comem, não apresentam sinais de obesidade. Mas elas são a excepção e não a regra. Para a maioria das pessoas, a alimentação regrada é um factor crítico para assegurar um peso adequado. Por outras palavras, o ambiente é, em geral, mais importante que os genes.


G - Alguns casos de excesso de peso estão associados a carências/perturbações psicológicas. O stresse, a ansiedade, a depressão, levam a que se coma de forma compulsiva. Estes casos são mais complicados de resolver?

AC - Sim, como corpo e mente estão intimamente ligados, há uma componente psicológica na alimentação: muitos problemas de défice ou de excesso de peso têm essa componente. São, de facto, situações muito complicadas. À falta de peso, baseada na recusa de alimentos de origem mental, dá-se o nome de anorexia nervosa e ocorre nalgumas jovens. Ainda há pouco correu o mundo a notícia de uma modelo francesa que morreu extra-magra. Mas é mais frequente o problema de excesso de peso com uma origem psicológica: frustrações na vida pessoal ou profissional conduzem à procura inconsciente de calorias nos alimentos num mecanismo de compensação. Na minha consulta de nutrição tenho encontrado muita gente que, quando chega do trabalho, vai logo, com grande ansiedade, abrir a porta do frigorífico. Ou que “ataca” o frigorífico a altas horas nocturnas… Procura-se compensar com calorias a satisfação que falta. No meu livro “Emagrecer é…” dou algumas indicações sobre o modo como lidar com esse tipo de situações. É tudo uma questão de auto-controlo e de escolha de alimentos certos para essas situações. Mas, é mais fácil de dizer do que de fazer...

G - Não há fórmulas mágicas para reduzir o peso, mas antes do Verão é certo e sabido que as dietas rápidas são seguidas por muitos. Qual o impacto da adopção desses comportamentos?

AC - Entre nós, o tempo do Verão é o tempo de ir à praia e, portanto, de mostrar o corpo. É, por isso, natural que se tenha mais cuidado com a linha, isto é, que haja preocupação em alcançar padrões de beleza socialmente aceitáveis. A Primavera-Verão é a melhor época do ano para emagrecer, pois, por um lado, há uma grande variedade de frutas e saladas, e, por outro lado, o tempo agradável convida à prática de exercício físico, como passeios e caminhadas. Mas é absolutamente contraproducente seguir dietas rápidas para atingir o padrão desejado. A gordura demorou algum tempo a acumular e vai ter de demorar algum tempo a desaparecer. As dietas rápidas não funcionam pela simples razão de que ninguém aguenta um regime muito restritivo por muito tempo. E os quilos perdidos acabam por reaparecer, por vezes acompanhados por mais alguns…

G - Muitas pessoas não têm motivação para combater o excesso de peso. Qual o impacto de programas televisivos como “The Biggest Loser”, que em breve terá uma versão portuguesa?

AC - A motivação é essencial e deve vir do próprio. Claro que motivação adicional pode provir da ajuda de familiares, amigos ou colegas, mas o próprio, que é ou deve ser o principal interessado, tem de estar determinado a mudar os seus hábitos alimentar e de vida. A motivação é essencial. Tal como em muitos outros aspectos da vida, querer é poder. Pode custar um bocadinho de início, mas a compensação de se sentir, depois, mais leve e mais saudável é enorme. Os livros e os média, incluindo a televisão e a Internet, podem ser boas fontes de consulta. Os programas de televisão, como o “Peso Certo” chamam a atenção para o problema da obesidade. Podem servir para chocar. Mas não passam de espectáculos, bem encenados…Por vezes as mensagens transmitidas não se adequam aos casos individuais.

G - Afirmou no livro “Emagrecer é…” que “é pela boca que se engorda, é pela boca que se emagrece”. Mas o exercício físico também é fundamental. A combinação de alimentação correcta com a aposta em actividade física é a fórmula certa para combater o excesso de peso?


AC - Sim, obtém-se o peso certo combinando alimentação adequada com exercício físico também adequado. De uma maneira muito simples, para não acumular calorias, as calorias que entram devem equilibrar as calorias gastas no metabolismo interno e na actividade física. Mas, dito isto em geral, fica por dizer muita coisa. Sabe-se hoje que há calorias e calorias, isto é, alguns alimentos têm calorias que se dirigem mais para o metabolismo: crescimento da massa muscular ou da estrutura óssea, sem haver acumulação de gordura. E a perda de calorias por exercício tem de ser feita com o devido cuidado: nem toda a gente pode ter as mesmas práticas.

G - Qual o apoio prestado por um nutricionista a uma pessoa que deseja perder peso?

AC -
Um acompanhamento pessoal especializado ajuda a escolher o melhor regime alimentar para cada caso individual. E, além disso, esse acompanhamento tem a vantagem de proporcionar o "coaching" sem o qual as resoluções pessoais têm pequena probabilidade de êxito. As revistas ou livros contêm regras gerais. Mas as pessoas têm idades, constituições físicas, hábitos alimentares e estilos de vida diferentes. Só um(a) nutricionista tem formação e experiência necessárias para efectuar um diagnóstico e um tratamento específico para cada pessoa. E só um(a) nutricionista pode seguir a evolução dos efeitos do regime, adaptando-o para ter o melhor resultado, reforçando a vontade de quem o segue. É como diz o ditado:"a tenda quer-se com quem a entenda".

G - Nalguns casos é necessário recorrer à cirurgia. O aconselhamento de um nutricionista é também fundamental nessa fase?

AC - Sim, em casos de obesidade extrema, não há melhor solução do que uma intervenção cirúrgica. Mas também aqui o acompanhamento por um(a) nutricionista é muito útil, tanto na fase pré-cirurgica, como, principalmente, na fase do pós-operatório, em que, com um “corpo novo”, há que seguir um novo regime. Alguns dos doentes que acompanho perderam muitos quilos graças a cirurgias, tendo melhorado muito a sua qualidade de vida.

G - Hoje é muito comum as pessoas comerem fora de casa. Como podem fazer escolhas saudáveis e nutritivas?

AC - O ideal é sempre comer em casa, pois tem-se melhor controlo sobre tudo aquilo que se ingere. Mas o estilo de vida moderna, designadamente nas cidades, obriga a comer fora de casa. Comer num restaurante não é hoje desculpa para engordar. Pode-se sempre escolher um restaurante de comida saudável ou pedir comida saudável num restaurante normal. Começar com um prato de sopa, é meio caminho andado para fazer uma refeição baixa em calorias. Do segundo prato podem sempre rejeitar-se as batatas e o arroz substituindo-os por leguminosas, legumes ou saladas.

G - O que recomenda para o lanche a meio da manhã e da tarde?

AC - Comer várias vezes ao dia é um dos segredos de emagrecer. Recomendo uma peça de fruta – tenha maçãs sempre à mão – ou um iogurte natural ou de aromas. Pode misturar os iogurtes com a fruta. Se puder evite o pão nessas alturas, mas se o comer, escolha pão integral e com queijo magro. Quanto a bebidas, água, infusões ou café sem açúcar, são as melhores formas de ingerir líquidos. Convém não esquecer que quem passa o dia sentado em frente a um computador gasta muito pouca energia não devendo fazer grandes lanches, se não quer engordar!
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