COMER BEM EM TEMPO DE CRISE

A crise económica que estamos a atravessar, associada a altos índices de desemprego, redução de salários e aumento dos preços dos bens essenciais, tem levado inúmeras famílias a cortar nas despesas com alimentação. Este facto que, à primeira vista, é um problema grave, pois comer é uma das mais básicas necessidades humanas, pode ser aproveitado de uma forma inteligente para dar uma volta nos (maus) hábitos alimentares instalados em muitas casas. É interessante notar que a palavra "crise" se escreve em chinês combinando dois caracteres: «perigo» e «oportunidade», ou seja, os momentos caóticos e perigosos podem ser, afinal, oportunidades de renovação.

Como nutricionista, deixo um conjunto de regras, que reuni não exaustivamente, destinadas a poupar dinheiro na alimentação, sem nunca perder de vista as necessidades fundamentais de nutrientes que proporcionam saúde a todos os elementos da família.

Tome o pequeno-almoço sempre em casa usando alimentos tradicionais: leite ao qual pode juntar café ou chocolate, se não desejar tomá-lo simples, e um pão com manteiga ou queijo ou mesmo sem nada. Pode parti-lo aos bocadinhos e colocá-lo dentro da sua taça de leite, matando saudades das tradicionais "sopinhas de leite". Esqueça os cereais de pequeno-almoço, que são muito mais caros e, ao contrário do que a indústria alimentar quer fazer crer, não são nada saudáveis.

Leve sempre consigo fruta, pão, leite ou iogurte, para comer a meio da manhã ou da tarde. Assim evita gastar dinheiro em "snacks". Procure que o seu filho leve também de casa os lanches da manhã e da tarde. Comer no bar da escola fica mais caro. Além disso, evitará que ele consuma gomas ou outras guloseimas pouco ou nada recomendáveis.

O almoço e jantar devem ser sempre iniciados com um bom prato de sopa de legumes, um alimento muito barato, com poucas calorias, mas nutricionalmente inigualável. Para segundo prato não há necessidade de comer carne e peixe, alimentos mais caros, todos os dias. ao almoçoe jantar. As leguminosas, feijão, grão, lentilhas, etc., contêm proteínas com um perfil de aminoácidos muito interessante e que são, portanto, bons substitutos da carne e do peixe. Uma lata de feijão ou grão, que custa pouco mais do que cinquenta cêntimos, pode ser o princípio de uma boa refeição para toda a família. Experimente fazer um rancho, grão com massa cotovelo, cenoura e couve (ao qual pode juntar um bocadinho de linguiça para dar sabor) ou então experimente feijão frade ou grão de bico com cebola picada, salsa e um ovo cozido e/ou uma lata de atum.

Os ovos são também excelentes fontes de proteínas. Utilize-os nas suas refeições duas a três vezes por semana. E não tenha medo do colesterol. Está mais do que provado que o que faz subir o LDL-colesterol (o mau) são as gorduras hidrogenadas tão usadas pela indústria alimentar nos mais variados produtos (bolachas, bolos, cereais de pequeno-almoço, molhos, refeições prontas, etc.) e não o colesterol ingerido nos alimentos.

Outro modo de poupar no peixe e na carne é optar pela confecção de pratos que levam menos quantidade destes ingredientes, como feijoadas com pouca gordura, jardineiras, caldeiradas ou arroz de peixe ou massada de peixe. Compre mais vezes os peixes que são tradicionalmente pescados na nossa costa, como sardinha, carapau, cavala, fanecas, etc. e, quanto às carnes, a melhor escolha são as de aves e de porco.

Os legumes devem ser frescos, mas os congelados mantêm a qualidade nutricional e dão muito jeito a quem tem pouco tempo para preparar as refeições. Ficam um bocadinho mais caros, mas cada um deve ponderar se a diferença de preço compensa o menor tempo gasto na sua preparação.

Quanto às frutas, as de origem nacional são normalmente mais baratas e de boa qualidade. Pessoalmente privilegio o que é nosso. As maçãs de Moimenta da Beira, por exemplo, que se vendem já em sacos são tão saborosas quanto baratas, batendo as maçãs francesas ou italianas mais vistosas.

Quanto às bebidas, sumos e vinhos podem muito bem ser substituídos por água da torneira. Quando pagamos a conta da água estamos, claro, a pagar o tratamento de desinfecção a que foi sujeita. Para quê pagar por água engarrafada?

Evite almoçar ou jantar fora. É claro que o valor de um jantar num restaurante dá para comprar carne para toda a semana…

A alimentação para a saúde deve ser maioritariamente feita com base em alimentos naturais (ver imagem). Estes alimentos que se situam nas zonas periféricas dos supermercados são também os mais baratos. Poderá não ser fácil deixar alguns costumes que são caros e maus. Mas, vivemos numa época em que as mudanças que fazem uma enorme diferença no orçamento familiarse tornam inevitáveis. Olhemos a crise como uma oportunidade de renovar o modo como fazemos compras, escolhendo melhor os alimentos que vamos comer, confeccionando as refeições em casa, e levando para o trabalho alimentos naturais e saudáveis.
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