"Não há uma, mas várias formas de obesidade"


Com este título, a sempre interessante revista francesa "La Récherche" (LR) publica no seu número de Dezembro, que está nas bancas, uma entrevista com o Dr. Arnaud Basdevant (AB), professor na Universidade Pierre et Marie Curie e director do Serviço de Nutrição do famoso hospital da Pitié-Salpêtriêre, em Paris. Lembro que ainda há pouco houve um problema em França com um medicamento para emagrecer. Destaco um excerto:

LR - Não fala de medicamentos [para emagrecer]?

AB- Sejamos claros: nessa área é o deserto! Tem havido uma série de falhanços nos últimos anos, de tal modo que não há mais do que um só medicamento no mercado. É preciso absolutamente que nos interroguemos sobre estes falhanços sucessivos. Na minha opinião, isso tem a ver com o facto de se ter querido desenvolver medicamentos que servissem a toda a gente, quando o fenómeno da obesidade é muito heterogéneo. Algumas formas de obesidade são principalmente genéticas, outras estão ligadas a problemas comportamentais, a factores psicológicos ou sociais, a medicamentos prescritos para o tratamento de outras doenças... As próprias consequências são eminentemente variáveis. Alguns pacientes sofrem principalmente de complicações metabólicas, outros de complicações respiratórias, outros ainda de tensões psicológicas... Não é a mesma coisa atender um jovem que vem de aumentar 10 kg porque tem problemas familiares ou uma pessoa de 60 anos que tem uma obesidade maciça, uma apneia do sono, diabetes e hipertensão. É preciso ajustar estratégias e instrumentos terapêuticos "à medida", adaptados a cada paciente. estamos ainda muito longe disso.

LR- Então e não há pistas prometedoras?

AB- Se certas cirurgias são tão eficazes. é porque elas desencadeiam modificações mecânicas e biológicas; e pensa-se que essas modificações, uma vez identificadas, nos poderão fornecer pistas para novos tratamentos medicamentosos. Esse é o domínio da pesquisa clínica experimental realizada por várias equipas francesas sobre os mecanismos de acção da cirurgia. Mais globalmente, muitas esperanças sobre a pesquisa dos determinantes "não calóricos" da obesidade. É muito claro que a obesidade está ligada a um desequilíbrio energético, a um acréscimo calórico excessivo relativamente aos gastos. Mas nós não somos todos iguais perante essa situação Hoje em dia, interessamo-nos muito por tudo aquilo que possa explicar essas diferenças entre os indivíduos: decerto que a genética, e a interacção entre os genes e o ambiente; mas também tudo o que é epigenético, como a influência da alimentação materna durante a gravidez ou a influência da alimentação durante os primeiros meses de vida; ou ainda os sinais emitidos pelo intestino ou pela flora intestinal... Há aí uma possibilidade de compreender porque é que certas pessoas têm uma capacidade de armazenamento grande ao contrário de outras, porque é que certas pessoas resistem à obesidade e outras não."
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