"EM TELHADO DE ZINCO QUENTE"

Transcrevo a crónica desta semana do Dr José Pedro Lima-Reis (na imagem), médico endocrinologista, intitulada "Em Telhado de Zinco Quente", publicada na revista "Notícias Magazine" de 23 de Maio de 2010. O Dr Lima-Reis foi meu professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e é um excelente comunicador. Nesta crónica explica a importância do aporte de Zinco na alimentação para a saúde humana.


"O zinco, embora muito raramente alguém se lembre disto, é um dos muitos minerais necessários para uma saúde perfeita. Tanto assim que o colostro, aquele líquido esbranquiçado com que as mães brindam os filhos logo após o nascimento, é uma excelente fonte alimentar desse nutrimento. Quer dizer, ainda não sujamos a primeira fralda e já ele nos penetrou as entranhas por via oral para que nos desenvolvamos a preceito.

Essa pressa biológica de nos prover com ele tem variadíssimas razões entre as quais se contam a sua participação activa e insubstituível em múltiplos sistemas enzimáticos respiratórios e digestivos. Contudo, muitos outros órgãos e aparelhos dependem também da sua presença em quantidade bastante no mercado abastecedor interno para que ocorra desenvolvimento correcto, consolidação atempada, manutenção assegurada e até qualidade sexual para garantir a descendência e ampliar a obra.

De facto, a síntese das proteínas, a calcificação dos ossos, a estruturação da pele, das unhas e dos cabelos, a organização dos neurónios, a cicatrização dos neurónios, a cicatrização das feridas, a aquisição de competência procriadora, a secreção da insulina e a plena obtenção do sentido do gosto, entre outros menos populares, integram as realizações orgânicas que não dispensam os eu contributo para que a vida se processe com normalidade.

Agora, que vos obriguei a reflectir sobre o assunto, não se ponham em marcha acelerada a procurar suplementos nos locais de venda nem a estudar rótulos de alimentos prefabricados para seleccionar os que têm na lista de composição o mineral abençoado. Basta-vos saber que, por ordem decrescente de riqueza em zinco, têm à disposição nada mais nada menos do que ostras, fígado, carne de vaca, farelo e germe de trigo, carneiro, porco, criação, polvo, caranguejo, amendoins, queijo Cheddar e-imaginem-pipocas (Ensminger. Foods et Nutrition.CRC Press, 1995). Uma lista extensa a que poderia acrescentar outros comestíveis menos capazes, mas igualmente interessantes, para conseguir com alguma facilidade os 12 miligramas e meio diários que, em média, se recomendam para manter em níveis equilibrados as reservas orgânicas.

As carências graves deste elemento surgem habitualmente em situações de fome, pobreza extrema, alterações do comportamento alimentar ou restrição alimentar de qualquer origem, têm tradução clínica exuberante e prontamente reconhecível pelo exame clínico. As carências subliminares, pelo contrário, podem passar despercebidas por ausência de marcas distintas que as mostrem de imediato. Contudo, a longo prazo, podem causar alterações importantes na nossa fisiologia. Uma que agora se discute diz respeito à provável alteração da secreção de insulina e aumento do risco de diabetes tipo 2. por outras palavra, é mais fácil o surgimento desta doença numa população com inadequada ingestão de fornecedores de zinco do que noutra em que essa ingestão se situe dentro de níveis considerados satisfatórios.

Para não brincar com o fogo o melhor é incluir na dieta ao longo da semana alguns dos petiscos que, por força da moda ou da pressa, vamos esquecendo: umas iscas de fígado, um guisado de miúdos, uma cabidela de frango, um arroz malandro de polvo com filetes dele, um pires acogulado de amendoins para acompanhar a cerveja e, se nos pudermos dar a esse luxo das arábias, uma entrada de ostras com um branco fesquinho.

Também não nos ficaria nada mal passar a tolerar, a todos os cinéfilos que rilham pipocas enquanto o filme corre, o ruído e o cheiro com que nos apoquentam, porque afinal, esse poderá ser um truque de que se servem para que lhes goteje no depósito algum zinco de que carecem. "
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