TENTAÇÕES NOCTURNAS

No último romance de Ian McEwan que acaba de sair ("Solar", Gradiva, 2010) o personagem principal é um cientista gordo, que vai aumentando de peso ao longo do livro até fazer perigar a sua saúde. Parece sofrer de compulsão alimentar, uma perturbação do comportamento alimentar com episódios mais ou menos frequentes de ingestão de uma quantidade excessiva de comida mesmo sem sentir fome. Atente-se na descrição que o autor faz de uma refeição a meio da noite, completamente fora de horas, a que o cientista não resiste:
"Finalmente moveu-se, aconchegou-se num roupão e atravessou a sala mergulhada na escuridão, passando por cima da desarrumação que ele próprio produzira para chegar à cozinha. Aí, na semiobscuridade, postou-se diante do frigorífico da altura de um homem, hesitando um momento antes de pousar a sua longa pega de sessenta centímetros. O aparelho abriu-se com um som de sucção convidativo, semelhante a um beijo. As prateleiras tinham uma iluminação suave e difusa, como um arranha-céus de vidro à noite, e havia muito por onde escolher. Entre uma alface frisada e uma geleia feita por Melissa, numa taça branca coberta por papel de alumínio, estavam os restos do frango estufado. No compartimento do congelador havia meio litro de gelado de chocolate negro. Podia derreter enquanto ele começava. Tirou uma colher de uma gaveta (serviria para ambos os pratos) e sentou-se pronto para a refeição, já a sentir-se recomposto, enquanto retirava o papel de alumínio".
É necessário resistir a estas tentações!
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