UMA QUESTÃO DE TEMPO

Miguel Esteves Cardoso aborda a questão do "peso ideal" de um modo peculiar. E tem alguma razão... Transcrevo a sua crónica, publicada no jornal Público de ontem (21/01/2010), intitulada "Uma Questão de Tempo":

«Quando se fala no peso ideal, fixamo-nos no "peso", em vez de interpretarmos "ideal". Estamos todos gordos. Os que não estão também estão doentes. Nós somos obesos; eles são anorécticos; ninguém tem o peso ideal. Sofremos todos de dismorfia -até os narcisistas foram atingidos. Nos EUA dizer "you've lost weight" ou é entendido como um elogio insincero, feito por quem quer (ou tem de) dar graxa a alguém. Já em Portugal, qualquer desconhecido nos segreda que estamos mais gordos desde a última vez que nos viram. (No meu caso, há 15 anos, na "Noite da Má Língua" quando eu era um cocainómano, alcoólatra e nicotinófilo e uma única ostra me parecia um cabrito inteiro, frito em azeite, com chouriças fritas em vez de batatas.)

O ideal humano de hoje é o extraterrestre alto e magro que, no filme Avatar, vive no bolo Pandoro (não confundir com o planeta Panettone): o Na'vi, com aquela tão calmante apóstrofe na entremeada. Ser azul é apenas, como agora se diz, uma "mais-valia".

Proponho que se fale em tempo em vez de quilos. Em vez de dizermos que temos de perder 20 quilos, digamos antes que estamos 20 meses adiantados. Perder um quilo por mês é o máximo aconselhável. Quem tenha exagerado 2 quilos no Natal pode assim dizer que já chegou a Março e que faz questão de se sincronizar. Um quilo são 7700 calorias. Aguentamo-nos com 1200 calorias por dia. Mas comemos 2200 ou mais. Comendo menos 700, perdemos um quilo. E recuperamos uma semana. É mais elegante.»
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