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"O Fantasma do Colesterol"

Trancrevo excerto do capítulo "O Fantasma do Colesterol", uma das deliciosas histórias que o Dr José Pedro Lima-Reis conta no livro "O estranho caso do testículo desautorizado e outras histórias médicas" (Campo das Letras, 2003):


"Mau seria que após mais de trinta anos de trabalho na área da nutrição e endocrinologia clínicas não tivesse mãos cheias de histórias para contar(...)

Há cerca de três anos procurou-me uma velhinha de oitenta e dois anos muito preocupada com o colesterol. Tinha um valor de 213 mg para um normal de 200 e um exame clínico irrepreensível, tanto que não resisti a dizer-lhe que a sua incorporação nos fuzileiros navais seria possível se fosse caso disso. De facto, cuidava do marido dois anos mais velho que ficara entrevado na sequência de uma trombose e fazia-o praticamente sem ajuda. O médico assistente dissera-lhe que procurasse um especialista em alimentação para que lhe fosse prescrita a dieta adequada à alteração analítica que detectara e, por isso, ali estava, roliça, submissa, ansiosa e apreensiva, porque a afligia a possibilidade de se tornar incapaz de cuidar do marido doente.

Depois de ouvir esta história ou outra parecida ninguém pode ficar igual porque as respostas que tem de dar às questões humanas ou científicas que elas levantam são profundamente diferentes das levantadas por histórias semelhantes em contextos diversos e porque, provavelmente, fazem surgir dúvidas que nunca nos tínhamos posto. Poderá ser enriquecedor mas é desgastante.

Vejamos a título de exemplo.
Primeiro. Vale a pena começar uma dieta aos oitenta e dois anos? Quais os benefícios que daí podem advir? Quais os prjuízos? Os desequilíbrios provocados numa alimentação correcta, porque é inadmissível que alguém chegue com saúde aos oitenta e dois anos se não tiver tido uma alimentação equilibrada, não serão mais gravosos do que a alteração analítica? Tratamos doentes ou tratamos estatísticas? E se há quais os parâmetros de que nos poderemos servir para actuarmos correctamente?

Segundo. Se cair da altura de 200 mm não é nada perigosos porque é que cair de 213 já tem perigo? Temos ou não de ser flexíveis em relação aos valores tidos como normais? Em plano individual temos de ser dogmáticos ou pragmáticos?

Terceiro. Como normalizar agora a vida desta doente que há bem pouco tempo era apenas um senhora idosa saudável? A que argumentos será sensível para que a sua vida continue como se nada se tivesse passado? Como poderei afastar definitivamente da sua vida esse fantasma maldoso do colesterol que fizeram pousar no seu ombro para carregar como uma cruz até ao fim dos seus dias? Devemos fazer adoecer as pessoas que procuram a nossa ajuda com diagnósticos inconsequentes embora teoricamente correctos? É lícito omitir a verdade se a verdade não servir para nada? É por isso e por muito mais que as histórias médicas são aliciantes. Servem de ponto de reflexão para o que quisermos(...)

Com a Dona Carolina decidi que oitenta e dois anos não é idade para modificar hábitos alimentares, que um colesterol daqueles não é fantasma que se solte na casa de ninguém e aprendi, durante as três consultas que foram necessárias para exorcizar aquele espírito maligno do sangue gordo entupidor como se chega à nona década de vida cultivando a arte de bem comer em todo o prato. Posso acrescentar que o marido da Dona Carolina faleceu o ano passado, ela tem agora oitenta e cinco anos, continua a consultar-me apenas porque gosta de mim e eu nunca mais lhe pedi o colesterol."

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