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Sexo, Drogas e Chocolate - A Ciência do Prazer


O livro "Sexo, Drogas e Chocolate - A Ciência do Prazer" (Bizâncio, 2009) que acaba de sair dá uma grande ajuda a quem queira perceber melhor os mecanismos cerebrais envolvidos na dependência de alimentos como o açúcar ou o chocolate e na perda do controlo voluntário durante as fases de compulsão alimentar e bulimia experimentadas por muitas pessoas com excesso de peso. Transcrevo dois excertos, do capítulo "Jogar e comer em excesso", que são esclarecedores:

"(...) Imensas provas científicas apontam para que o açúcar é uma substância viciante. Inúmeras experiências demonstraram que os animais podem ficar viciados em açúcar se lhes dermos, esporadicamente, acesso a quantidades ilimitadas de açúcar. Os ratos que têm a possibilidade de se empanturrar de bebidas e alimentos açucarados durante doze horas por dia, e são depois privados durante as outras doze horas, ficam agarrados. Após algumas semanas deste regime, o seu consumo diário de açúcar triplica.

Os ratos que, desta forma, ficaram viciados em açúcar evidenciam os sinais característicos de dependência, incluindo a activação persistente dos circuitos dopaminérgicos na região do nucleus accumbens do cérebro. O sabor doce, por si só, é suficiente para desencadear a libertação de dopamina. Quando estes ratos ingerem açúcar, os padrões de actividade no seu cérebro são semelhantes aos observados em grandes doses de drogas que criam dependência. Apresentam também alterações na expressividade dos genes, semelhantes às encontradas na toxicomania, em particular, nos genes que codificam para os receptores de dopamina no nucleus accumbens. Num outro paralelismo com a toxicomania, os ratos viciados em açúcar denotam sintomas de abstinência se forem privados de açúcar. Os sintomas apresentam semelhanças com os produzidos pela abstinência de drogas que criam uma forte dependência, como a morfina ou a nicotina. Os dentes dos pobres animais batem, as patas tremem, comportam-se com ansiedade e têm um ar profundamente infeliz."

Veja-se agora o exemplo de um jornalista inglês que relata os seus impulsos descontrolados com origem em alimentos processados, ricos em amido:

"Evidentemente que o açúcar é um hidrato de carbono, e muitos humanos que comem demais descobriram que os hidratos de carbono são o seu calcanhar de Aquiles. Uma dessas pessoas é o jornalista William Leith, que escreveu de forma jocosa sobre a sua disfunção alimentar. Leith, que já foi referido como o rosto da vida compulsiva, tem-na retratado como uma longa batalha com uma série de dependências, desde o álcool ao sexo, passando por diversas drogas recreativas. Porém, foi na comida - em particular, os alimentos transformados, ricos em amido - que ele encontrou os seus impulsos mais descontrolados. No seu livro, The Hungry Years, refere que a fome de alimentos o assusta. Quanto mais engorda, mais lhe apetece comer, e de mais conforto necessita. Infelizmente, esse conforto só pode advir dos hidratos de carbono - idealmente sob a forma de torradas grossas cheias de manteiga. Leith refere um episódio típico de «furor de torradas», em que está tão impaciente pela sua dose de hidratos de carbono, que não consegue sequer esperar que a manteiga fria acabada de sair do frigorífico amoleça ou que as torradas saltem. Está «desejoso» de uma torrada, como se num acesso de nicotina ou numa febre de inalar coca. Tal como um drogado com a agulha mesmo sobre a veia, precisa dela imediatamente. "

O autor, Paul Martin é licenciado em Ciências Naturais pela Universidade de Cambridge e doutorado em Biologia Comportamental pela Universidade de Stanford, na Califórnia, onde leccionou no Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento.

Ver sinopse do livro aqui.
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