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Vai um copinho de leite com isoflavonas ?

Transcrevo a "deliciosa" crónica do jornalista João Miguel Tavares (Notícias Magazine, 29 de Março de 2009) acerca do leite enriquecido:

"Ah, como eu tenho saudades do tempo em que o leite era apenas leite. Hoje em dia ir ao supermercado aviar duas embalagens de Mimosa é uma autêntica
aventura linguística e sociológica. Aqui há uns dez anos, ir comprar leite significava escolher entre pacotes de gordo, meio gordo ou magro. Nos dias que correm, implica um mergulho nos abismos das vitaminas, das fibras, do cálcio e do ómega 3. Tenho cá para mim que seria muito útil começar a transportar um farmacêutico no nosso carrinho das compras.

Uma pessoa entra no Continente e tem dois corredores de leite. Um, mixuruca, de pacotes pouco ambiciosos e acomodados à vida, que não desejam ser mais do que o resultado de uma vaca pobremente espremida e se deixam comprar por cinquenta e poucos cêntimos. Pacotes à antiga, digamos assim, que manifestamente não acompanharam o progresso da humanidade. E depois temos outro corredor, de pacotes reluzentes, muito classe média-alta, que além do líquido que jorra do bovino são vitaminados por uma miríade de quinquilharia química que promete deixar-nos a apenas dois dedos de distância do Super-Homem. Como tudo o que reluz, há o reverso da medalha: cheguei a ver um pacote que prometia afogar o colesterol a 360 paus, moeda antiga.

O problema, claro, é que tansos como eu são irresistivelmente atraídos pelos que prometem, qual poção mágica do druida Panoramix, revolucionar a nossa existência em troca de vinte centilitros ao pequeno-almoço. Para tudo o que nos acontece na vida, inventaram um tipo de leite que ajuda a enfrentar a situação. Em verdade vos digo: o tipo que viu no pacote de leite um psicanalista em potência merecia uma estátua nos prados verdejantes dos Açores.

Ele há o leite «especial mamãs» com ácido fólico. Ele há o leite «cardio» com vitaminas B6, B12 e B9. Ele há o «bem activo» com vitamina D (que ajuda «na fixação do cálcio», aparentemente um elemento químico que tem dificuldades em ficar quieto). Ele há o «efeito bífidus», que todos sabemos ser um efeito maravilhoso, à base de «fibras solúveis». Ele há o leite «sem lactose», que é a cerveja sem álcool e o chocolate sem açúcar dos leites. Ele há o «bem especial crescimento», muito apropriado para as criancinhas, que por sua vez se subdivide em «1-3 anos» e «a partir dos 3 anos», que os putos não são todos iguais. Ele há o novo e moderno leite de soja, claro que só por si é um mundo à parte. Ele há o ecologicamente sensível leite biológico, que promete uma ligação directa às tetas das vacas mais felizes do planeta.

E depois há os nomes finíssimos como o «leite fibresse», que ajuda «à regularidade intestinal», como se o uso do sotaque francês ajudasse nas idas à casa de banho. Além, claro, de maravilhosas novidades a cair mensalmente nas prateleiras, como o recentíssimo «especial» para mulheres maduras» (oh, maravilhoso eufemismo) com (agarrem-se) «isoflavonas de soja e vitamina D». Da próxima vez que vir a minha avó mais abatida, vou poder dizer-lhe: «Avozinha, isso parece-me falta de isoflavonas. Tome aqui este leitinho.» Obrigado, rapazes da Mimosa. Sem vocês, as minhas idas ao supermercado
seriam bastante mais rápidas - mas muito mais aborrecidas."
Para rever o meu artigo "A moda dos alimentos enriquecidos" clique aqui.

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Leite sem lactose não é para diabéticos

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