O ECO SILENCIOSO

O médico e escritor João Lobo Antunes, no seu último livro "O Eco Silencioso", Gradiva, 2008, que reúne textos muito interessantes escritos nos últimos três anos, dedica um capítulo às limitações da idade. Transcrevo pequenos excertos desse capítulo porque envelhecer nos toca a todos:

«(...) Mas qualquer que seja a extensão do período da vida plena, gozada na completude de aptidões e capacidades, a verdade é que, como reconheceu Trotsky, o revolucionário, a velhice é a coisa mais inesperada que nos acontece e, acrescentaria eu, nunca é fácil. Bette Davies dizia que «getting old is for sissies», o que pode traduzir-se livremente, como «envelhecer não é para gente fraca».
A velhice surge muitas vezes sorrateira, pé ante pé, e, subitamente, uma mirada de relance ao espelho, uma fotografia tirada à socapa ou a indiscrição de um «vídeo» revelam-nos os estragos do tempo, a articulação perra, o porte alquebrado, a expressão consumida, como lamentou Nemésio. Outras vezes, instala-se de forma brutal, como uma doença súbita, devastadora, frequentemente como consequência de um cataclismo emocional que se abate sobre nós com o peso de um século.
Mas as limitações da idade não constituem necessariamente, um prelúdio a um final inevitável. Tome-se, por exemplo, um jogador de futebol a quem a idade vai fechando a carreira, aí pelo início da terceira década. As limitações do tempo são evidentes: o atleta perde «pulmão» (no jargão dos comentadores), a velocidade abranda, o «drible» hesita, refugia-se em terrenos mais seguros, defende-se do contacto físico, porque sabe que agora as mazelas são mais custosas de sarar.(...)»

«(...) Sobre as limitações físicas da idade pouco há a acrescentar ao que Shakespeare escreveu numa síntese certeira no seu Henrique IV: «a moist eye, a dry hand, a yellow cheek, a white beard, a decreasing leg, an increasing belly...your voice broken, your wind short, your chin double, your wit single, and every part about you blasted with antiquity» («o olho húmido, a mão seca, o rosto amarelecido, a barba branca, a perna fraca, o ventre inchado...a voz quebrada, o fôlego curto, o queixo duplo, a compreensão lenta e todas as tuas partes malditas pelo tempo»).
Mas o declínio não segue um modelo uniforme, como se houvesse uma falência, paralela, sincrónica, de todos os aparelhos e sistemas. Algumas destas limitações, citando a metáfora que uso na clínica, derivam de um defeito do software, e são responsáveis pelas quedas inesperadas, pela desarticulação do movimento; outras são limitações do aparelho locomotor, dos instrumentos que garantem a autonomia, e a perda desta é dolorosamente sentida. De meu pai escrevi eu: «O espírito ainda não se vergara, mas o corpo começara a derrotá-lo, e foram-se-lhe enferrujando os músculos. Ele, que fora um atleta, seco, rijo, começou a queixar-se, sempre preciso da nomenclatura, de que se atrofiavam os nadegueiros (...) As pernas não lhe obedeciam mais, já não podia contar com a sua servidão.(...)»

Embora o autor explique que «é no declínio das funções cognitivas que o envelhecimento tem a sua expressão mais visível, mais incapacitante e mais cruel», termino com a transcrição de um excerto que nos dá uma visão optimista e uma orientação acerca do que podemos fazer para minorar os efeitos do declínio cognitivo:


«(...) É evidente que com a idade diminui a capacidade de aprender sobretudo conceitos complexos. Mas há também alterações qualitativas curiosíssimas, que permitem olhar a velhice com mais optimismo. De facto, sabe-se hoje, desmentindo a noção clássica de invariabilidade do número de células nervosas, que a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade de gerar novas células e estabelecer novas conexões nervosas, está presente toda a vida. Esta capacidade de renovação depende em parte do grau de educação e da persistência em actividades mentais complexas. Como conto no ensaio sobre a velhice do meu pai, ele não desistiu, até muito pouco tempo antes de morrer, de treinar o intelecto e muscular a memória, escrevendo na tampa das caixas de fósforos uma série interminável de datas, verdadeiras efemérides de almanaque, como o ano da morte de Beethoven, da publicação da Divina Comédia, da batalha de Waterloo, eu sei lá... Por outro lado, há indicações de que os testes de vocabulário mostram uma vantagem consistente nas pessoas mais velhas.
Como nota Baltes, há nos velhos um pragmatismo cristalizado, um apuramento da inteligência emocional e da sabedoria, atingindo muitas vezes o cume da excelência humana. (...)»

De acordo com a programação do Casino da Figueira, João Lobo Antunes estará logo à noite na Figueira da Foz para apresentar "O Eco Silencioso".
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