EM PORTUGAL NÃO SE COME MAL

Miguel Esteves Cardoso está de volta com o livro Em Portugal não se come mal, Assírio e Alvim (Agosto,2008). São crónicas gastronómicas em que o autor lamenta as modificações que a gastronomia tradicional portuguesa tem sofrido depois que entrou na União Europeia (UE).

«Sub-repticiamente, sem notícia nem protesto, vão desaparecendo da mesa portuguesa iguarias essenciais - algumas por causas naturais, porventura inevitáveis, mas outras por determinação burocrática, assentes na dupla-prensa com que presentemente nos comprimem os testículos e ovários e oprimem as papilas e as barriguinhas.
Um dos pesos deste instrumento da tortura gastronómica vem da empedernida pedreira de Bruxelas; a outra do férreo fascismo da mania higieno-sanitária que nos quer todos magros, altos e activos quando todo o enorme esforço civilizacional de milénios vai na direcção contrária.»


Estas crónicas cheias de humor , fazem com que eu não resista a transcrever mais alguns excertos. A propósito do que as recomendações da UE sobre toxicidade fizeram com o típico arroz de forno do Norte:

«No Porto, procurando-se o sublime arrozinho de forno, tradicionalmemnte confeccionado em tachinhos de barro, encontrar-se-á, em vez do dito arrozinho, uma longa explicação acerca do conteúdo de chumbo que há no barro e na maneira terrível como nos envenena, apesar de séculos de alegre sobrevivência.
A toxicidade terá sido descoberta por impolutos cientistas britânicos em laboratórios impecáveis. Sim, sim, apetece responder, mas quantos arrozinhos no forno comeram desde miúdos? Ou arrozes de miúdos? Ou alguma comida que preste? Meu Deus, essa gentinha apanharia cancro se comesse um brócolo nascido ao sol.»


E do capítulo "Mediterrâneo, o tanas!":
«A nossa culinária piscícola nasce por duas razões: uma mediterrânica; a outra atlântica. A mediterrânica - como a maravilhosa sopa de cação - surge por ser difícil arranjar peixe fresco (e bom) longe do litoral.
Essa é menos original e menos portuguesa e, nessa matéria, somos muito menos jeitosos que espanhóis e franceses do Sul - embora melhores do que os italianos que, sicilianos à parte, não sabem mesmo o que fazer ao peixe, benza-os Deus.
A razão atlântica é a mais luxuosa e portuguesa: é uma culinária que nasce do tédio. Era tanta a fartura de peixe e mariscos que começam a arranjar-se maneiras engenhosas de continuar a aturar as amêijoas, a pescada; as lulas; as sardinhas; até as lagostas! Mas a prova que nunca nos fartámos assim muito (acho que o português, mesmo pescador, nunca se fartou de peixinho) é que somos igualados ou suplantados em matéria de invenção culinária pelos povos atlânticos nossos irmãos e congéneres: os galegos; os asturianos; os bascos; os bretões...
Não me venham é dizer, por muito que se goste de Barcelona; da cozinha provençal; italiana ou até grega; que temos uma cozinha mediterrânica.
Não temos. O Mediterrâneo é que tem características que são comuns ao Sul continental e interior da Europa. Não tem nada a ver com o mar. E a parte beira-mar é inteiramente diferente da parte beira-oceano.
O Mediterrâneo é uma vasta latrina poluída e fechada sobre o qual urgiria, de uma vez por todas, puxar o autoclismo e começar de novo.
Isto é; se não se soubesse por onde forçosamente se daria a descarga: pobre Algarve! »


Penso que já dá para abrir o apetite. Leiam e divirtam-se!
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