A COCA-COLONIZAÇÃO


Nos anos 50 do século passado alguns epidemiologistas americanos baptizaram o seu modelo alimentar com o termo Coca-colonização. Acho-o curioso, até porque a Coca-Cola simboliza o american way of life em virtude das grandes campanhas publicitárias que a empresa tem efectuado. Choca-me, no entanto, que se incentive o consumo desse refrigerante em bebés, como acontece num antigo cartaz com o título: Para melhor começar na vida comece com a Coca-cola mais cedo!

Do ponto de vista da nutrição, o início do consumo generalizado de Coca-Cola coincidiu com grandes alterações alimentares que levaram aos conhecidos números da epidemia da obesidade nos Estados Unidos.

Obviamente que a Coca-Cola não é a única responsável, mas os consumos desta bebida e de outros refrigerantes similares estão intimamente relacionados com os índices de obesidade uma vez que eles contêm demasiado açúcar. A água foi trocada por bebidas açucaradas.

A título de exemplo, atente-se nas estatísticas: o consumo de refrigerantes por pessoa e por ano na Bélgica, passou de oito litros em 1950 para 50 litros em 1970 e para 89 litros em 1999. O consumo anual por pessoa de alimentos com muita gordura e açúcar, como bolachas, croissãs, “gaufres”, pastéis, folhados, etc., passou de um quilograma em 1960 para 21 kg em 1995! Estes dados são suficientes para se perceber quando teve lugar a maior e mais prejudicial revolução alimentar experimentada pelo homem no decurso da sua história.

Em 1972, o médico inglês John Yudkin, pioneiro das ciências da alimentação e autor do famoso livro sobre o açúcar Pure, white and deadly (1975), formulou o chamado modelo dos 70 libras e 20 anos: Quando uma dada população consome anualmente 70 libras (cerca de 35 kg) de açúcar por pessoa durante 20 anos, passa a haver uma relação com o aumento da frequência das doenças ditas de civilização, como diabetes, hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares.

Ora é isso mesmo que está a acontecer na Europa. O consumo de açúcar nos países da União Europeia passou de 600 gramas por pessoa e por ano em 1780 para oito quilogramas um século mais tarde com a introdução do açúcar de beterraba. Em 1985 cada pessoa consumia num ano 32 kg em França, 38 kg na Bélgica, 41 kg na Grã-Bretanha e de 54 a 63 kg nos Estados Unidos (conforme os estados). Os consumos continuam perigosamente a aumentar. Os americanos atingiram níveis difíceis de superar e nós, europeus, vamos pelo mesmo caminho.


Bibliografia:
Médart, J. (2007),Guia Prático Climepsi da Nutrição, Climepsi Editores.
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