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ALCOOLISMO - Novas Moléculas contra o Vício

"Novas moléculas contra o vício" é o título de um artigo sobre novos medicamentos no tratamento do alcoolismo que transcrevo da revista Courrier Internacional (Julho 2008), publicado na Science em 11.04.2008 assinado por Greg Miller.

"Os problemas de álcool de Jennifer tiveram início aos 30 anos, quando o seu casamento começou a deteriorar-se. Em Washington, para onde esta californiana foi viver, após a separação, bebia uma garrafa de litro e meio de vinho enquanto a filha estava na escola e esvaziava outra ao fim do dia. Por duas vezes, acabou nas urgências, submetida a desintoxicações.

Gradualmente, foi perdendo o controlo da sua vida. No ano passado, aos 36 anos, apresentou-se como voluntária para um estudo sobre o tratamento contra o alcoolismo, efectuado pelo Instituto Nacional da Saúde de Bethesda, Maryland. Submeteu-se a um exame médico, preencheu uma série de questionários e aceitou participar num teste em que um investigador lhe ofereceu um copinho de vodca que teve apenas de cheirar. Sem beber. «As mãos ficaram húmidas e comecei a salivar. Imaginava-me a beber cocktails com amigos, numa esplanada, numa noite quente de Verão», recorda.

Durante as quatro semanas seguintes, Jennifer permaneceu no Hospital, tomando um comprimido por dia. Num teste cego, ignorava se o comprimido era um placebo ou um medicamento destinado a atenuar os efeitos da tensão no seu cérebro. O estudo, dirigido por Markus Heilig, director de investigações clínicas do Instituto Nacional Americano sobre o Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), tem por objectivo testar um medicamento que espera que ajude aqueles que descreve como «alcoólicos ansiosos»: os que não consomem pela sensação de satisfação que o álcool lhes possa dar, mas pelo alívio. O álcool liberta-os do stresse psicológico diário ou do stresse fisiológico ligado à falta de álcool, quando o corpo desenvolveu dependência.

(...) Na opinião pública, porém, como entre certos médicos não especialistas, continua-se a pensar que é a vontade - e não os medicamentos - que permite deixar a dependência. Marco Willenbring, director de investigação de tratamentos e processos de recuperação do NIAAA, discorda. «É como dizer: para quê tratar a diabetes com insulina? Porque não ensinar simplesmente os diabéticos a comer e a fazer exercício?» Se as terapias comportamentais são eficazes em numerosos doentes, o certo é que dão melhores resultados quando apoiadas com medicamentos que permitam reduzir a pressão da dependência, afirmam Willenbring e outros especialistas.

Há três moléculas que já são autorizadas no tratamento da dependência do álcool, nos Estados Unidos, mas nem todos os doentes reagem da mesma maneira. No caso do naltrexone, autorizado em 1994, que suprime todas as sensações agradáveis e efeitos euforizantes do álcool, por inibição dos receptores opióides do cérebro, a genética permite entender a razão por que certos alcoólicos reagem melhor do que outros. É o que explica Charles O'Brien, médico e psicofarmacólogo da Universidade da Pensilvânia, um dos primeiros a ter promovido a utilização de medicamentos no tratamento do alcoolismo. (...)

(...) Estudos epidemiológicos e clínicos identificaram duas grandes categorias de doentes. Os atingidos por «alcoolismo de recompensa», em que o álcool provoca sensações fortes, excitação, desinibição... são em geral, pessoas com antecedentes familiares de alcoolismo e que tiveram problemas associados ao álcool durante a adolescência ou por volta dos 20 anos. Segundo Heilig, são os que respondem melhor ao naltrexone. Quanto ao segundo tipo, o "alcoolismo de ansiedade", atinge bebedores moderados que, pelos 30 ou 40 anos, desenvolvem problemas de dependência mais sérios. Bebem para se livrarem do stresse e da ansiedade e o naltrexone é pouco eficaz neles. (...)

(...)Heilig realizou outro estudo com alcoólicos ansiosos. Foi nesse que participou Jennifer. Administrou-lhes um medicamento que age sobre outro mecanismo do stresse, inibindo um receptor da substância P, neurotransmissor que age sobre os mecanismos da dor e do stresse. Num painel de 50 alcoólicos em recuperação que, segundo o questionário, apresentavam um forte nível de ansiedade, o estudo provou que o tratamento elimina o stresse e as emoções negativas que levam os alcoólicos ansiosos a consumir.

Uma vez terminado o estudo Jennifer ficou a saber que fizera parte da amostra que recebeu o medicamento, não o placebo. Afirma ter sentido diferença quando lhe voltou a ser apresentado o copo de vodca: «Dessa feita, não me imaginei numa situação ideal e não associei o álcool a momentos agradáveis. Não tive vontade de ir buscar cubos de gelo e sumo de fruta, como da primeira vez».

Outros investigadores concordam que as perspectivas parecem prometedoras. Resta confirmar se a molécula testada permite reduzir o consumo de álcool nos doentes atingidos por problemas de dependência.

Apesar destas incertezas, os investigadores que trabalham há muito sobre o alcoolismo estão bastante optimistas. De acordo com Willenbring, dentro de cinco a dez anos, esta área terá o seu momento de glória(...)
Se assim for, a proporção, até agora incrivelmente pequena, de doentes que recebem tratamento eficaz contra o alcoolismo, poderá, enfim, crescer."


Imagem: http://mundoemchamas.googlepages.com/MZ05-Alcoolismo.jpg/MZ05-Alcoolismo-full.jpg
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