Pular para o conteúdo principal

PROVÉRBIO DO OVO INSÍPIDO


O título de cima é o título de um belo trecho do livro "Pequeno Tratado do Sal", do químico francês Pierre Laszlo (Teorema, 2006), que é também autor da "Palavra das Coisas" saído na Gradiva. O autor parte de um provérbio português sobre o ovo sem sal e tenta interpretá-lo. Aliás, ele fez um prefácio especial para a edição portuguesa onde lembra que Portugal rima com sal (Fernando Pessoa usou-a na "Mensagem": "ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!") e onde afirma que, no tempo dos Descobrimentos, "o sal de Setúbal era o melhor sal do mundo". Vale a pena ler a sua prosa sobre o nosso provérbio:

"Diz um provérbio português: "ovo sem sal, não faz bem nem mal": Como em muitos outros provérbios, as assonâncias ajudam a memorizá-lo: sem-bem e sal-mal.

Retirado do seu contexto, este provérbio tem um aspecto enigmático: que um ovo cozido sem sal não faça nem bem nem mal, que ele seja de efeito neutro, a dar crédito a esta sabedoria popular ancestral, deixa-nos frios ou desconcertados.

Mas a virtude de um provérbio reside no seu implícito tal como na metáfora que ele exprime. Aqui o ovo é geralmente considerado como representativo de um alimento: um prato insípido não pode fazer mal, enquanto um alimento, pelo facto de ser salgado, pode causar dano. Pode também entender-se este provérbio de outra maneira que é valorizar uma dieta sem sal.

Mas o ditado tem certamente um sentido muito mais vasto, uma vez que o sal simboliza de forma geral aquilo que dá sabor ou picante à existência. Por isso devemos apreciá-lo sobretudo num sentido moral: viver sem emoção ou paixão é viver sem risco, no simples dia-a-dia, sem disso retirar satisfação nem desgosto.

Esta interpretação mais alargada fortalece-se com aquilo que o ovo (e pensemos nos ovos da Páscoa) simboliza - a fertilidade e o ser vivo: uma vida sem paixão é seguramente muito monótona!"
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Leite sem lactose não é para diabéticos

Ontem de tarde, durante a consulta de atendimento a diabéticos, um dos utentes pôs-me a questão se o leite sem lactose seria o melhor para os diabéticos. A dúvida faz todo o sentido uma vez que a lactose é o açúcar natural do leite. No entanto, este leite foi criado para pessoas intolerantes à lactose, que não digerem bem o leite por deficiente produção de lactase, a enzima necessária ao desdobramento da lactose.

Então porque é que é que o leite com 0% lactose não é bom para diabéticos?

A lactose é um hidrato de carbono complexo (dissacárido) formada por duas moléculas de hidratos de carbono simples, a glicose e a galactose (monossacáridos). O leite com 0% lactose não tem, de facto lactose, mas tem os seus constituintes, a glicose e a galactose, que são açúcares simples que fazem subir a glicémia (glicose no sangue) mais facilmente. Quem prova este leite não tem dúvidas: ele é mais doce e foi por isso que o referido doente estranhou e me apareceu com o pacote de leite sem lactose na mão…

COUVE LOMBARDA SALTEADA

Ontem para o jantar fiz couve lombarda salteada com bifinhos de peru grelhados.  É um prato super fácil de fazer que se prepara em 15 minutos.

INGREDIENTES (para quatro pessoas)
Meia couve lombarda
1 cenoura
2 colheres de sopa de azeite
2 dentes de alho
sal marinho q.b.

Depois de lavar a couve, corte-a em juliana. Descasque e rale a cenoura. 
Numa frigideira coloque o azeite e os alhos picados até estes começarem a fritar. Junte a couve, a cenoura e um pouco de sal. Deixe cozinhar cerca de oito minutos mexendo com frequência (se gostar da couve mais cozida deixe cozinhar mais tempo). Está pronto! 

Acompanhei com bifinhos de peru grelhados, temperados com pimenta, pouquíssimo sal, mas com muito sumo de limão. 

Esta couve também fica bem a acompanhar qualquer tipo de peixe.
Experimentem!

O segredo de cozinhar bróculos verdes e nutritivos

Do livro "A cozinha é um laboratório" (Fonte da Palavra, 2009) transcrevo alguns conselhos para bem cozinhar os brócolos evitando, dentro do possível, perdas de nutrientes e o desenvolvimento de cores e aromas indesejáveis: "Corte-os apenas na altura de serem introduzidos na água quente. Além de os cortar em pedaços, dê um golpe longitudinal nos pedúnculos. Estes cortes têm como objectivo acelerar a cozedura, dado aumentarem a área de exposição à água quente. Adicione os brócolos à água a ferver, com o lume no máximo. Para minimizar a perda de nutrientes e ter a melhor cor final, não use muita água, nem pouca... no meio é que está a virtude! Deixe o recipiente destapado nos primeiros minutos. Cozinhe-os durante apenas cerca de 5 minutos (ficam mais estaladiços e com uma cor mais bonita). Se não os for consumir logo, passe-os por água muito fria mal sejam tirados do lume, para parar todo o processo. Como melhor alternativa, coza os brócolos em vapor. O resultado será ainda melh…