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ENTREVISTA PROFESSOR FERNANDO PÁDUA

Fernando de Pádua é um dos cardiologistas mais conceituados em Portugal. Professor catedrático de Medicina Interna e de Cardiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, Fernando Pádua conta com um trabalho de mais de 50 anos a difundir ensinamentos de vida saudável.
Recebeu recentemente o Prémio Nacional de Saúde 2007 pelo "pioneirismo e dedicação do trabalho de promoção e prevenção, que contribuiu inequivocamente para a obtenção de ganhos em saúde".

Transcrevo partes de uma entrevista sua, publicada na revista "Saúde em Revista", edição 2008.

Saúde em Revista-Qual a razão de Portugal ainda apresentar níveis altos de AVC?
Fernando Pádua-Entre nós as doenças cardiovasculares têm melhorado. Nós esquecemo-nos que a educação para a saúde deve começar na tenra idade. A industrialização faz com estejamos mais parados e o marketing televisivo, que há uns anos nos fez bem (nossa Luta Nacional contra a Hipertensão Arterial), está-se a tornar ameaçador sobretudo para as crianças. Os programas infantis estão cheios de publicidade a bebidas com chocolate, bebidas gasosas e a "junk-food", todas as asneiras da comida, o que nos está a tornar obesos. Estamos cada vez mais gordos e preguiçosos! (...)

SR-Quem são realmente os inimigos do coração?
FP-A gordura, o sal e o tabaco são, de facto, os principais inimigos do coração, responsáveis pela subida da pressão arterial, do enfarte do miocárdio e dos acidentes vasculares cerebrais. Devemos comer aquilo que gostamos, mas com mais saladas, fruta e menos doces, aumentar o exercício físico, subir escadas, andar a pé e em especial, não fumar.

SR-É verdade que já há crianças pré-hipertensas?
FP- (...)O ideal é termos tensão abaixo de 12, tudo que é daqui para cima somos nós que fabricamos, por isso pelo que comemos e bebemos há cada vez mais crianças pré-hipertensas, obesas ou pré-diabéticas. Como dizia o mestre Paul White: "doença ou morte antes dos 80 é culpa do homem, não é de Deus nem da Natureza".
(...)Todos nós, pela industrialização, andamos cada vez menos. Veja um exemplo que é comum a muitos portugueses: saímos de casa, entramos no elevador, depois entramos no carro que por sua vez pára mesmo à porta do escritório. Aí subimos de elevador e sentamo-nos em frente ao computador. O que quer dizer que dentro dos factores de risco cardiovascular quando falamos de tensão , diabetes, entre outros, o mais importante é realmente a falta de exercício físico. (...)

SR-Quer dizer que vamos no mau caminho?
FP-Aos 10 anos os miúdos já têm excesso de peso. Não há doença nenhuma genética que mude em poucos anos. A doença dos pezinhos é genética, a hipercolesterolémia familiar também é genética, agora tudo isto que nós temos é devido à mudança dos nossos hábitos, são os nossos comportamentos que estão em causa. Ou nós nos voltamos para as crianças e falamos com elas apresentando as coisas como elas são, dizendo: se comeres doces e fritos vais elevar os níveis de açúcar e colesterol, se não fizeres ginástica correspondente ao que comes, vais engordar; se fumas vais ter problemas nos pulmões. No fundo trata-se de dar aos miúdos o poder de decisão, o que não é difícil, pois eles já decidem sobre a playstation que querem ter ou a roupa que querem vestir.(...)


SR- Por isso a sua grande aposta está agora nos sub-20?
FP- Nós levamos 20 anos a estragarmo-nos. Aos 20 vem um reforço deste estragar pois os jovens sentem-se mais livres, mas gozam a vida com demasiados excessos. Se formos analisar os miúdos de 20 anos vamos constatar que quase todos eles já têm colesterol a mais, já têm pré-hipertensão e excesso de peso. Quase todos fumam, e nesta fase parar de fumar é um grande sacrifício! A lesão arterial na aterosclerose tem factores aceleradores como é o caso da hipertensão, do tabagismo e da hipercolesterolémia- os "assassinos" da população portuguesa.


Os homens ainda continuam a ser os mais atacados pela doença coronária, as mulheres começam agora a ter mais este problema mas vão com 10 anos de atraso. A sua fase de protecção hormonal ajuda muito a que tenham os problemas mais tarde, com excepção das mulheres fumadoras que passam logo para as estatísticas dos homens.

SR-Isso quer dizer que a prevenção na escola não funciona?
FP- Nem na escola nem em parte nenhuma se pensou nas crianças nestes termos. Tudo deve ser ensinado na escola: estilos de vida, riscos de doença, tabaco, álcool, sexo e sida. Mas os problemas não são só do tabaco, é que na escola há miúdos que levam atestado para não fazer ginástica e desporto e para piorar têm hábitos alimentares errados. Enfrentar o problema das doenças do coração só depois dos 20 anos é como ir escondendo todas as asneiras feitas dos 0 aos 20 anos e só então as querer remendar. A nossa prevenção já é secundária, chegamos tarde demais às coisas.

(...)O que se pede às pessoas é que elas emagreçam meio kg por mês, o que dá 6 kg por ano e andem a pé uma hora por dia, o que faz 30 horas por mês! Quanto ao tabaco, esse sim, deve ser totalmente abolido.

Uma atitude inteligente é comer o dobro das coisas que não se gosta e metade das que se gosta. Mas come-se de tudo. As pessoas não sabem que quando nos sentamos à mesa são necessários 20 minutos para que o cérebro receba influxo de que entrou comida no estômago, que foi digerida, que passou para o intestino, entrou no sangue, a glicemia subiu. Se comermos à pressa, o estômago até pode estar cheio, mas a mensagem ainda não chegou ao cérebro e nós continuamos a comer...porque ainda não passou a fome.

SR-As consequências do tabaco são maiores para os homes ou para mulheres?
FP-Uma mulher que fume e tome a pílula está dez vezes mais sujeita a sofrer de doenças cardiovasculares. A pílula com o tabaco aumenta a probabilidade de trobose. Os acidentes vasculares cerebrais em mulheres jovens são quase sempre da associação do tabaco e da pílula. Mas mesmo sem pílula, a mulher que fume perde dez anos de vida, como os homens.

80 por cento das doenças que enchem os hospitais são derivadas dos factores de risco tão nossos conhecidos como: os erros da dieta, o sal, o açúcar, o álcool, o tabaco, a falta de actividade física e a gestão do stress. Já há pessoas a chegar aos 120 perfeitamente activas e lúcidas, ainda não sabemos qual é o limite... por mim eu só peço para chegar aos 120 anos (risos).

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