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Bettina Brentano e a imagem corporal


Transcrevo um "post" muito interessante sobre a imagem corporal do Professor Rui Baptista, publicado no blogue "De Rerum Natura" (na foto Bettina Brentano, que foi amiga de Goethe e de Beethoven):

A imagem corporal é o desenho que formamos na nossa mente do nosso próprio corpo”. Shilder (1980)

O estudo sobre a imagem corporal é transversal a fronteiras da psiquiatria, da psicologia e de todo o conhecimento que ao corpo diga respeito até porque a preocupação exagerada com os actuais padrões do mundo da beleza feminina pode levar a distúrbios alimentares, como a anorexia nervosa ou a bulimia, que sem tratamento adequado, e em tempo devido, podem ter o desfecho trágico de uma morte anunciada.

Como docente, sempre que tinha que abordar esta temática com os meus alunos dava o seguinte e simples exemplo da distorção mental do corpo. Dizia eu, se repararem, as representantes do chamado belo sexo (e, porque não confessá-lo, alguns representantes do chamado sexo forte) quando recebem das mãos do fotógrafo o envelope que contém as suas fotografias, mesmo que favorecidas pelas luzes do estúdio, a primeira coisa que dizem ao vê-las é: “”Ai que mal que eu fiquei!”

Passado pouco tempo, há como que uma “habituação” entre a fotografia e “o desenho formado na mente do corpo” , e o fotografado reconhece não ter ficado tão mal quanto isso. Minha falecida mãe, tida como uma bonita mulher, a partir da idade de sexagenária só muito a contragosto se deixava fotografar sem que eu compreendesse o porquê da sua relutância. Hoje tenho como motivo possível o facto de a fotografia, em que se começava a notar o efeito da passagem dos anos, não corresponder já à imagem guardada da juventude.

Através de uma prosa que fui rebuscar entre os papéis que me merecem guarida, aproprio-me de um texto de rara beleza transcrito por João Bénard da Costa, homem de uma invejável e multifacetada cultura, da autoria da escritora alemã Bettina Brentano (1785-1859):

“Contava ela que no colégio em que andava não havia espelhos e, por isso, não fazia ideia como era.
Até que um dia, tinha eu 13 anos, fiquei estarrecida quando, sentada com as minhas irmãs ao pé da minha avó, vi o grupo inteiro reflectido num espelho. Reconheci imediatamente todas, menos uma estranha rapariga com olhos de fogo, muito corada e com umas grandes tranças pretas. Nunca a tinha visto, mas fui logo atraída para ela. Em sonhos já tinha amado uma pessoa parecida com aquela. E havia qualquer coisa na expressão dela que me comoveu tanto que os meus olhos se encheram de lágrimas. E disse de mim para mim que tinha de seguir aquela criatura, prometer-lhe fidelidade e confiança. Se lhe fizer um sinal, sei que ela responde. Se me levantar, ela virá ter comigo. Nesse momento sorrimos as duas. Só nessa altura tive a certeza que, no espelho, tinha visto a minha própria imagem” (“Os filmes da nossa vida”, O Independente, 14 de Outubro de 1994; estes textos foram reeditados em livro).

Em jeito de remate certeiro, João Bénard da Costa deixa-nos a seguinte e valiosa análise: “Há quem interprete este passo como manifestação de narcisismo. Nada disso. Do que se trata é de espelhismos: fidelidade à imagem própria, como primeiro preceito corroborativo da verdade, da vida, da beleza e do amor”.

A leitura deste breve texto autobiográfico de Bettina Brentano prova-nos que uma boa peça literária pode cativar e perdurar mais do que a leitura de enfadonhas páginas de tratados sobre temas de natureza científica, mesmo para as pessoas que a eles se dedicam profissionalmente. Haverá uma outra maneira de definir a imagem corporal de uma forma tão intensa, tão duradoura e tão bela como esta?
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