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A MODA DOS ALIMENTOS ENRIQUECIDOS


A rápida evolução que as ciências da alimentação e nutrição têm vindo a sofrer nas últimas décadas veio modificar os hábitos de comer, que passaram a estar estreitamente ligados à prevenção e cura de doenças. Os investigadores identificaram vários compostos bioactivos (nomedamente, compostos de origem vegetal, designados por fitoquímicos) com efeitos na saúde, que têm sido aproveitados pela indústria alimentar para aumentar a venda dos seus produtos. Por outro lado, cada vez mais gente se preocupa com o que ingere de modo a prevenir enfartes, tromboses e cancros, entre outras terríveis patologias, acrescentando assim anos à sua vida.

Com o objectivo da nutriprevenção e nutriterapêutica, há hoje leite enriquecido com ómega-3, cálcio, vitamina D, isoflavonas de soja, margarinas com fitosteróis, água com fibras, iogurtes para baixar o colesterol, ovos com ómega-3 que são adicionados na ração dos aviários, etc. Enfim é tal o número de produtos que proliferam nas prateleiras dos supermercados que temos de perder algum tempo à procura de um litro de leite de vaca que pastou na Natureza, uma dúzia de ovos postos por galinhas “normais” ou um um pacote das velhas bolachas “Maria”. A questão é: haverá realmente alguma vantagem em consumir alimentos enriquecidos?

De facto, nenhum destes produtos consegue substituir os alimentos próprios da época, frescos ou bem conservados, e variados todos os dias. Os alimentos tal como nos chegam da Natureza podem fornecer todos os nutrientes que necessitamos. O leite, por exemplo, sempre conteve cálcio em quantidade suficiente para satisfazer as nossas necessidades diárias. Só em situações muito especiais poderá haver vantagem num complemento deste mineral. Uma coisa é certa: se o cálcio for a mais, o organismo terá de o excretar, caso contrário, a sua lenta deposição por todo corpo, faria com que virássemos estátuas. Felizmente os rins trabalham para eliminar o cálcio excedentário, mas existe, nesse caso, a possibilidade de formação de cálculos.
Para baixar o colesterol, enriquecem-se os alimentos com fitosteróis, moléculas de origem vegetal que têm de facto uma acção benéfica, embora muito pequena, na redução de uma baixíssima percentagem de colesterol. Não se sabe, no entanto, qual a sua acção e comportamento ao adicioná-los aos iogurtes e à margarina.
A quantidade de ácidos gordos ómega-3 adicionada ao leite ou às bolachas, para prevenção cardiovascular, fica muito aquém do que é necessário e falta provar se têm o mesmo efeito dos que são ingeridos quando se come peixe gordo (sardinha, salmão, atum, cavala, etc.), o “ambiente” natural dos ácidos gordos ómega-3.
Os produtos enriquecidos podem ser uma alternativa pontual, desde que haja uma orientação da dieta alimentar por um profissional, mas é sempre melhor fixar as nossas escolhas nos alimentos frescos, simples e variados. A absorção dos nutrientes deve ser feita através dos alimentos onde existem naturalmente, devendo ser máximo o cuidado com os excessos.

É útil fazer nutriprevenção e nutriterapêutica, mas de uma forma orientada e com base em alimentos da época. Acima de tudo, não devemos permitir que a propaganda da indústria alimentar nos faça optar por alimentos enriquecidos de vantagens discutíveis mas com preço indiscutivelmente mais elevado.
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